30th Jun2011

Os Residentes

by Pedro Henrique Gomes

É sempre muito perigoso (podendo soar até irresponsável e preguiçoso) sentenciar que um filme seja “sobre” alguma coisa. No caso de Os Residentes, filme de Tiago Mata Machado, seja até um pouco símbolo de uma limitação do olhar. O que talvez colabore e dê vazão a essa ideia seja a conexão tão vasta de referências que se transfiguram (assim mesmo: umas sobre as outras; outras sobre umas) em cada imagem. Prefiro acreditar que Os Residentes está mais interessado na procura pela desmistificação dos mitos modernos da sociedade aqui e ali onde nascem essas ervas daninhas que o corrompem e o esfacelam. Para tratar as rupturas, só entendendo do rompimento, o que nos leva a entender e compreender o filme como parte de um cinema essencialmente político. Se falarmos de um cinema abertamente político, o situacionismo, dito como argumento central do filme, nos conduz a visões diversas sobre as ideologias das personagens: se elas estão em busca do desligamento total em relação à sociedade ou se estão justamente tentando se reconectar a ela por intermédio desse rompimento. Para lançar um olhar sobre esse mundo de reclusão só mesmo compartilhando de suas experiências e práticas de vida.

Esse olhar permeia os diálogos entre as personagens de Gustavo Jahn e Melissa Dullius. Tiago filma uma discussão entre o casal do filme com leveza proporcional à rispidez que o tempo e o espaço cênicos exigem. E se a câmera é também um personagem, parece que há um desejo de contaminar e de ser contaminado por ela, um desejo de esquadrinhar um espaço sempre que possível para revelar um corpo. De fato, Os Residentes capta essa convulsão dos corpos, essa profusão deles sobre eles mesmos. O que deixa uma nova dúvida: as questões entre ética e estética (que em uma cena são relacionadas como parte de um todo) são totais e centralizam o discurso do filme ou desejam apenas fazer ecoar a questão primordial: o situacionismo? A resposta pode não vir explicitamente configurada, pois Tiago parece estar mais interessado em exprimir os problemas (e colocar em jogo mais perguntas do que repostas) e apontar os caminhos possíveis para contorná-los. Contornar esse universo paradoxal que toma conta da sociedade, desprender-se das amarras (para simbolizar isso, podemos tomar aquela personagem sempre presa, sempre atada ou mergulhada em alguma coisa; até o momento em que ela se libertará, extravasando aquilo que estava engasgado) e dos vícios de um contingente envenenado pela espetacularização das imagens, eis o latifúndio em que Os Residentes se dispõe. Cinema pungente, pautado na intersecção entre as diversas manifestações artísticas, principalmente no campo audiovisual – sem fazer aqui uma distinção entre o que é cinema e o que é arte visual.

Para além das referências diretas, que vão de Godard a Schönberg, passando por Debord, não é muito difícil lembrar das imagens de um Robbe-Grillet (mesmo que seja apenas por um lapso da memória, como na cena em que um jato de tinta vermelha banha um corpo inerte), da rigidez do ato de “filmar a conversa” de um Rohmer e da poética de um Rimbaud. Tantas referências me parecem severamente confeccionadas a revelia da ação do próprio do filme, pois elas diversas vezes se misturam sem confluir, se correlacionam sem estarem necessariamente ligadas. Simplesmente (a)parecem em meio a mutação das cenas como que distribuindo-se no intuito de legitimar um discurso e de validar a ação anterior – os planos majoritariamente fechados, os rostos que abarcam os quatro cantos do quadro, a trilha sonora que só pesa ainda mais o desequilíbrio das personagens (não da narrativa). Mas para tudo há uma quebra, uma ruptura que desestabiliza a situação-limite e que pauta a transformação da imagem no pêndulo dessa inquietação do realizador.

Pois Os Residentes demonstra ser um filme que está querendo lutar consigo mesmo, responder às suas próprias perguntas sem abandonar uma visão de mundo que lhe confere autenticidade; porque não, tanto ética quanto estética. Esse mosaico montado cria uma fruição narrativa toda especial, joga um charme sobre ele mesmo e ridiculariza a insubordinação dos seres presentes naquele ambiente pesado e cínico. Mas para tentar estabelecer uma ordem às coisas somente quebrando a organização natural delas, refugiando-se na anarquia e enxergando através de uma visão de mundo que mais lhes parece conveniente e acessível.

(Os Residentes, Brasil, 2010)
De Tiago Mata Machado
Com Gustavo Jahn, Melissa Dullius, Jane Doucas, Simone Sales de Alcântara, Dellani Lima, Roberto de Oliveira, Geraldo Peninha, Cassiel Rodrigues, Paulo César Bicalho

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