20th May2011

Réquiem para um Sonho

by Pedro Henrique Gomes
Um cinema mental?
Para além do hip hop montage, esse estilo característico de montagem que Darren Aronofsky costuma empregar nos seus filmes, em que tudo responde de forma muito mais acelerada e violenta na tela, o que mais pode ser verificado estética e narrativamente em seus filmes? A princípio fala-se em “estudo da mente humana” como parte de uma temática central na obra do cineasta nova-iorquino. Constata-se, porém, em Pi, seu filme de estreia, um olhar mais destinado ao redor, ao cerco, à volta, ou seja, ao mundo que rodeia sempre uma personagem criada para aprender (ou reaprender) a lidar com esse mundo uma vez que se insere nele. Nesse processo, obsessão se traduz em desespero – ficando a um só passo da insanidade. Em tese, sim, nada passa sem uma descida visceral ao obscurantismo da mente – e daí pode-se até concluir que os protagonistas de Aronofsky estão sempre vivendo em um transe constante e que, para acordar dessa inconsciência momentânea, só mesmo equilibrando as coisas nesse sonho/pesadelo que se passa num segundo plano, num plano virtual. A busca pelo sonho é um estado comum a essas personagens. Tanto em Pi quanto em Réquiem, tudo isso ganha força em razão do isolamento que estes protagonistas criam para si – eles inevitavelmente se afastam da sociedade e, quando interagem com ela, demonstram total falta de tato. Aronofsky busca, a partir daí, exprimir o máximo do flagelo causado por esse encontro. Ele é um catalisador de forças humanas – mas ele quer deixar você chapado(a).
As imagens se fundem numa orgia frenética de cortes, numa convulsão sensibilizadora (pois tudo se trata de transmitir sensações, tudo ambiciona posicionar o espectador diante do caos alucinatório; Aronofsky quer a imersão totalizante dos sentidos) de desespero e agonia: as personagens, os objetos (que são também personagens, pois interagem diretamente com as pessoas, os espaços, os lugares, e, essencialmente, com a trilha sonora; são as partes que compõem o todo) e as coisas dialogam imbuídos(as) de uma força narrativo-estrutural que os converge e os transmuta numa atmosfera onde não existem espaços de fuga ou pontos de escape – e até o final vai ficando cada vez mais claro que, para nenhuma das personagens, haverá a redenção pura e simplesmente. Aronofsky desdobra-se para ambientar o filme perturbando quem o vê, sem imagens facilmente aceitáveis, enternecedoras. Não é um filme sobre drogas, mas sobre vícios. Não é o lícito ou ilícito que irão determinar o tamanho do monstro – o sistema social talvez seja o grande distribuidor de todas as verdadeiras drogas. As drogas trazem problemas, mas o filme trata de emancipar os vícios como potencializadores da desgraça e da degradação mental e física que toma conta da existência de homens e mulheres entregues a um falso modelo de prazer. Esse prazer resume-se ao gozo momentâneo proporcionado pelo efeito da droga – para eles, tudo funciona em prol da consequência, a causa é apenas um episódio esquecível e manipulável, mas pelo qual vale a pena passar. Um drama muito tenebroso envolve estas pessoas que passam a sentir prazer mesmo quando ele vem acompanhado de muita dor. No final, todos saem perdendo, seja o que for: pode ser um braço, a consciência, a liberdade ou o corpo.
As personagens de Réquiem para um Sonho são um casal de jovens, Harry Goldfarb (Jared Leto) e Marion Silver (Jennifer Connelly), desejosos sempre pela próxima dose, Sara (Ellen Burstyn), mãe de Harry, e o amigo Tyrone (Marlon Wayans). O comum entre eles é o vício (cocaína, heroína): Harry, Marion e Tyrone são usuários compulsivos. Já Sara, que na primeira sequência do filme demonstra condenar as atitudes do filho (ela chegou ao limite de acorrentar a televisão para que Harry não a vendesse), após receber uma suposta ligação de um programa de televisão convidando a participar do show, passa a sofrer com o vício. Excitada, Sara passa dias se produzindo para o grande momento de sua vida, do salão de beleza à dieta sugerida por um médico para conseguir “entrar” num vestido. Mas o vestido que tanto quer usar não lhe serve e a dieta tradicional tampouco surte efeitos sensíveis em seu corpo. O remédio é uma pílula receitada pelo médico, que Sara passa a tomar em doses cavalares. Não percebe, mas vai se tornando cada vez mais compulsiva, até a perda total dos sentidos. O vestido, que carrega um peso simbólico muito forte para ela (relacionado a Harry) é essencial para “o grande dia” e para a trama – por mais que Aronofsky seja mais um cineasta da visceralidade e do tom seco do que da metáfora, o vestido parece ser o fio condutor dos estados psíquicos e físicos das personagens (quanto mais ele vai entrando em Sara, tomando seu corpo, dando um sentido possível a sua ambição, mais ela e todos os outros agonizam).
A maneira de conduzir é notável, a proeza estética alcança objetivos concretos em termos de potência, mas Réquiem carece de personagens – a técnica ameaça recusar a história e condena as personagens a perecerem como objetos do cinema, ostensivos e hostilizados por seu criador. É uma estratégia que, a despeito de sua informalidade e aparente irreverência estética, erra e acerta em semelhante teor. Esse é um sacrifício muito caro ao cinema estadunidense moderno: estilizar demasiado. Se em Pi (e nos futuros Fonte da Vida, O Lutador, Cisne Negro) as personagens secundárias eram somente marionetes propositalmente erigidas para um protagonista, aqui são quatro as personagens alvos de foco. O caos é representado através do caos, a dor pela dor, o choro pelo choro, o sorriso desesperado pelo sorriso desesperado. Não que isso seja capaz de reduzir a desestabilização que as imagens criam, mas diminui seu efeito justamente por vazar demais seus efeitos em defesa de um estilo, e não de uma representação tangível de acontecimentos e situações. A opção pela montagem revela um diretor ansioso para criar esse estilo, uma identidade estilística que simbolize sua própria imagem enquanto artista (e) criador. O que essa fricção instaura é fruto da instabilidade da câmera, da sequência vertiginosa de cortes, da trilha sonora que acentua o estado de suspensão, de êxtase, de delírio; do travelling, do plano-sequência, da plongeé, do plano-detalhe. Muitos mecanismos para um filme só. Um filme de virtudes e defeitos bastante salientes, mas um filme notável.
(Requiem for a Dream, EUA, 2000)
De Darren Aronofsky
Com Jared Leto, Jennifer Connely, Ellen Burstyn, Marlon Wayans

One Response to “Réquiem para um Sonho”

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