15th Apr2011

Uma tragédia social

by Pedro Henrique Gomes
A mídia está em fervor. O noticiário diário tem dado muito material às grandes editorias dos veículos dominantes. É o homem que deliberadamente decide atropelar uma dúzia de ciclistas em Porto Alegre; o deputado que vai à televisão difundir o preconceito contra negros e homossexuais; o jovem que invade uma escola e mata mais de uma dezena de crianças no Rio de Janeiro. – para ficar só com os casos mais recentes. Fartura para um mês inteiro de exploração da “cultura do medo” (como disse o amigo/blogueiro Bruno Cava no Quadrado dos Loucos em artigo recente).
É a mesma mídia que parece disposta e empenhada em construir mitos e erigir celebridades para alimentar sua população com a desinformação, prestando um verdadeiro desserviço geral. A produção em série dos noticiários só aterroriza as pessoas. Sorrateiramente, vai estimulando o sangue e difundindo a cultura da agressão. A notícia que mais vale é a que mais choca. O pior é que a população está acostumada com o horror, pois foi educada com ele pela mídia. E aí o sangue sempre será a notícia mais rentável. O leitor/espectador espera o noticiário da televisão para saber qual foi a maior atrocidade do dia, depois corre para o Youtube para saciar sua sede por informações complementares. A mesma mídia leva monstros à televisão para que eles possam vociferar seus cantos lamuriosos de crueldade e desrespeito à população, incitando e explanando suas ideologias bastardas. E vejam só: seus discursos, elevados à máxima potência, inflamam almas e corações facilmente influenciáveis, o que é pior. A fórmula básica: produção maciça de desculturalização e encantamento pelo medo, pelo terror, pelo pavor. Instiga-se a população a tornando descrente e decrépita.
É de interesse dos barões do mercado e dos controladores da imprensa que a população coma em suas mãos, que saiba apenas aquilo que eles querem que saibam, que a população fique em casa sentada no sofá da sala assistindo sempre as mesmas novelas pintarem o quadro de amor e luxúria da zona sul carioca – que não condiz em nada com a realidade do país. Nem mais, nem menos. Oprimir e acuar. Aí quando surge uma novela que trata da ditadura, movimentos constituem-se (logicamente pelas mãos de militares) imediatamente com o intuito de derrubá-la, tirá-la do ar. Dizem que o que passou, passou; não se deve ressuscitar um fantasma há muito tempo morto no passado (sobre o desarquivamento dos processos da ditadura, Danilo Marques se pronunciou no O Inferno de Dandi aqui). Só fala isso quem vive no mundinho de fantasias criado pela mídia, que corrobora para a alienação das massas populares.
Mas é importante destacar que a grande imprensa segue apostando amiúde, todas as suas fichas, numa crença que já começa a dar sinais de cegueira. Mas a democracia da internet, que é onde está imbuída a cultura digital, a difusão livre de conhecimento, está abrindo os olhos das pessoas, culturalizando-as, intelectualizando-as. Vejam as revoluções que tomam conta do mundo árabe. Elas deixam muito claras as reais potências que estão se formando, evidenciam o estado das coisas: ninguém mais será capaz de escrever a História do mundo somente com suas mãos. O poder instituído, os grandes barbantes do Estado e os grandes veículos produtores de celebridades instantâneas só instigam e contribuem para a putrefação de nossas ideias e a anulação de nossos ideais. Mas eles estão perdendo espaço, talvez não haja mais tanta gordura assim para ser queimada, como se pensa. Talvez agora seja sensato averiguar se suas forças, suas armas e sua selvageria não estejam realmente em perfeito esfacelamento, cedendo diante do poderio que vem se constituindo e se interconectando nas redes. Vem daí a defesa tão vigente que vem sendo feita à livre difusão da cultura, a cultura digital, ao compartilhamento e a troca. Mas já é tarde demais, o Twitter e o Facebook já foram inventados, as pessoas já se conhecerem, já acordaram, já difundiram as verdadeiras informações. O povo já está sabendo, e vai, assim, educando a si próprio.
 E veja só o que as coisas acarretam: grupos de extrema-direita organizando protestos em favor do Deputado Jair Bolsonaro, simpatizantes nazifascistas e defensores da ditadura (aliás, Bolsonaro decerto é contra a Comissão da Verdade). Veja bem, homens vestidos a caráter: estrelas ninja, máscaras e bandeiras para protestar em favor de quais direitos mesmo? Estes que impunham bandeiras neonazistas, cartazes anti-Battisti e camisetas de combate. Mas é o direito a palavra, né? O direito a livre expressão. Mas, para esses, só posso dizer que a História não será mais escrita por eles. Bolsonaro (a cobertura sobre os protestos neonazistas em São Paulo, com vídeos, imagens e depoimentos de Raphael Tsavkko, você vê no blogue dele), muito esperto, tenta amenizar as declarações empurrando com a barriga e manejando com jeitinho a complexidade das coisas, dizendo que não havia entendido a pergunta. Brasileiro malandro sabe que homofobia não lhe trará grandes problemas, mas racismo (que é crime) sim – leva inclusive uma foto do cunhado (supostamente negro) para tentar escapar das acusações de racismo.
Sobre o deputado Jair Bolsonaro (outro artigo dá conta maior sobre o caso, no blogue O Descurvo, do Hugo Albuquerque), alguns apontamentos necessários. Acredito que diminuir a gravidade das declarações do Deputado é um erro crasso, como vem sendo feito por muitos abstêmios que querem dar a discussão por encerrada (de maneira semelhante aos que são contra a Comissão da Verdade; ou seriam os mesmos?). O peso delas não é tão somente o preconceito. É tudo muito mais delicado do que parece. O que fica para nós deste cadafalso? Encerrar a discussão é um problema grave, pois essas “simples declarações” ferem milhares e corrompem mentes. Evidentemente que o discurso das massas tende a ser vítima do calor do momento, de opiniões muitas vezes sem embasamento e conduzidas desfocadamente diante da complexidade das coisas, mas empurrar a sujeira para debaixo do tapete não serve mais. Não hoje. Não no século XXI. Pena que não existe mais um Durkheim, um Marx, um Baudrillard ou um Schütz aqui e um Debord acolá. Deixar as coisas como estão (“está ruim, mas vai melhorar”), acomodar-se: eis o mal do nosso tempo. Uma coisa é certa: não será o silêncio abstêmio que irá mudar o mundo. Não há heróis ou algozes nesse nosso mundo antropofágico. Que não nos calemos, pois.

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