11th Mar2011

Ensaio: Fazer crítica (parte 2)

by Pedro Henrique Gomes
Fazer crítica de arte nada mais é do que reagir às situações. O artista cria, o crítico (que é também um apreciador, junto ao público) reage. O crítico não diz, expõe. Tentaremos aqui dar continuidade aos diálogos causados pelo ensaio anterior (link ao final do texto), sempre com o intuito de disseminar o “pensar crítico” de maneira a contestar o estado das coisas. Como um movimento lento, onde algumas vezes se pode ser indelicado, de alguma forma há um desejo de eletrificar as bases argumentativas, de mexer mesmo com as pessoas, provocá-las, tirar-lhes o chão por um instante – não confundir com os polemistas prontos, de razões desfocadas. Notoriamente, os debates mais acalorados que circulam nos meios de comunicação são aqueles resultantes de opiniões em pleno e cordial desacordo com o pensamento da maioria. Pois, psicologicamente, a discordância instiga a oposição, gerando o debate (a princípio o grande catalisador de qualquer evolução mundial). Aí reside a natureza do Homem: entrar em conflito constante com aquilo que não lhe parece correto (a noção do “correto” pode também ser subjetiva) ou apropriado. O crítico é o agente causador, pois cria as balizas que instauram o debate. Resta ao público dar seguimento. Daí a importância do crítico, como já comentado anteriormente (há uma grande diferença entre comentarista de cinema e crítico, não há mal nenhum em ser um nem outro, apenas é preciso saber separá-los), passar a uma esfera de problematização apurada: discutir mesmo, provocar.
A boa crítica é aquela onde o leitor se pega dizendo: “Discordo, mas trata-se de um olhar interessante, conflitante”. A boa crítica é aquela em que estão presentes todos os questionamentos pertinentes e cabíveis na análise de uma obra, onde se descobre que o mundo é grande demais para se ver reduzido a argumentos insolúveis, postos sob blindagens impenetráveis de valores pessoais e argumentos pouco úteis ao pensamento crítico do coletivo. Pouco importa o que você acha de um filme, se você gosta ou não dele, se ele lhe faz sentir uma pessoa melhor. Tais apontamentos podem servir a nível de curiosidade, despertada e aguçada pela facilidade que se tem hoje de difundir opiniões à lá fast food, mas não se enquadram num conceito crítico; de problemática, de visão de mundo. Mas a questão é de outra ordem, diz respeito ao desenvolvimento de uma percepção, de uma ideia, de uma visão, de um olhar anti-sedentário, anti-preguiçoso e relapso. Isso sim interessa, e muito. Ou seja, interessante é a discussão que uma opinião bem fundamentada gera. Não se trata de resolver a obra, de contar aquilo que ninguém notou. Nem toda obra tem aberturas que permitam uma análise mais profunda. A chave da porta mágica da escrita crítica não está necessariamente atrelada à compreensão da obra em voga: faz-se valer até onde o crítico pode chegar e o que dessa obra ele consegue exprimir e discutir com o mundo (discutir, eis a palavra chave a todo pensamento crítico evolutivo). Se a obra encontra facilmente seus limites, feliz é o crítico que consegue torná-la maior do que ela é.
Não existe um formato, uma fórmula, um portfólio para o crítico apoiar-se diante do papel em branco. Cada obra é uma obra. O que deve existir é sempre o mesmo respeito, a mesma dignidade, o mesmo confrontamento diante daquilo que se analisa. Novamente retornamos a questão do “ser um bom crítico”. O bom crítico é aquele que reconhece os limites de si próprio e mesmo assim tenta superá-los através das palavras, com sensatez e sem deixar-se ludibriar embrenhando em terrenos desconhecidos a ele próprio. Daí o fato dos conceitos etereamente difundidos de subestimado e superestimado serem estritamente subjetivos – como já discutidos no primeiro ensaio, são mais utilizados pelos comentaristas de cinema, que, na maioria dos casos (generalizar é sempre ignóbil), não são críticos. Se ninguém é capaz de quantificar a potência de um filme, ninguém é capaz de julgar a ignorância alheia. Primeiro porque não existe uma verdade, e sim uma realidade. A crítica cria uma realidade, mas que não é necessariamente a verdade. Como uma narrativa de ficção, a escrita aproxima os fatos e os expõe, criando um conjunto de minimoléculas que configuram uma ideia exposta sobre a obra. Segundo porque essa realidade criada também não diz a verdade, pois essa “verdade” inexiste. Se valida a crítica pelas calorias que ela queima, pelo suor que lhe escapa os poros, ou seja, quando os problemas levantados não são mais emblemáticos do que análises técnicas. Notas e apontamentos sobre a técnica de um filme são sempre importantes, pois se sabe que muitos cineastas/filmes a utilizam não só como recurso, mas como dispositivos de linguagem – quando a estética é também narrativo-funcional. O desencanto na leitura de uma crítica vem quando há claramente uma perdição nestes recursos (técnicos) como juízo de valor da obra, como se fosse possível resolver a obra por meio de análises científicas.
De alguma forma, a crítica tenta responder questões sobre nossa própria condição humana. No fim das contas, almeja dizer um pouco também sobre o que somos. Como o filme carrega um pouco do autor, a crítica também desfalece ideias sobre quem a escreve. A teoria que auxilia e pode ser um grande alento ao desenvolvimento do pensar crítico (inclusive, no caso de Deleuze e Kael, também sobre questões técnicas do cinema) pode ser vista especialmente em Rudolph Arnheim, Roland Barthes, André Bazin, David Bordwell, Serge Daney, Gilles Deleuze, Pauline Kael, Henry Langlois e Christian Metz. A leitura teórica ajuda a compor referências, de modo a solidificá-las, mas o exercício cinéfilo é catalisador. A cinefilia faz o bom crítico. Desterritorialização (Guattari): faz-se também necessário conhecer diversas obras, variadas cinematografias, múltiplos olhares. A transdisciplinaridade (entre, além e através) requerida diz respeito ao estudo de toda uma gama de complexidades dos relacionamentos entre a obra, crítico e o público.
É por isso que argumentos que desmistificam e reduzem a função do crítico (“o crítico é só um artista frustrado” é comumente espalhado na rede, geralmente por aqueles possuidores de pouca fruição argumentativa, limitados à superfície das coisas e a impostação delas sem direito a contraresposta) não servem para nada, tampouco causam o efeito desejado, pois se contradizem dando tiros nos próprios pés: já há aí uma crítica da crítica. Um mundo sem críticos seria o mesmo que uma política sem partidos de oposição (ditadura antipolítica, como as que agora falecem no mundo árabe), onde reinaria a frente absoluta de interposições e o genocídio de ideias e opiniões (visões de mundo: do agora, do ontem, do amanhã) seria o registro único da posteridade. Um caos premeditado por Orwell (1984) e Huxley (Admirável Mundo Novo), onde só se vê o que se pode ser visto segundo os regentes do poder. Por isso é natural o caminho que os jovens críticos percorrem rumo à direção de seus próprios filmes, como fizeram no passado Godard, Rohmer, Truffaut, Rivette na Nouvelle Vague. É o processo saudável onde o crítico passa a condição de criticado, onde todo o conhecimento adquirido pode ser testado na prática. Por certo, subentende-se que fazer um filme é também fazer uma crítica não só dos próprios filmes, mas do mundo. O cineasta é tão crítico quanto o próprio crítico. Portanto, mais do que um criador de simbologias da metafísica, quem escreve (e quem faz o filme) deve adaptar-se as situações e não acomodar-se sob formas e conceitos pré-estabelecidos. A invenção e a criação na escrita funcionam tenuamente em conjunto com a lógica de uma exposição do pensamento cognitivo (Aristóteles e Platão), onde os reflexos sensoriais (o que fica na memória do Homem) atuam como motores para a análise, auxiliando o processo mental, que por sua vez influi diretamente no texto.
Onde se localiza a importância desse espaço crítico hoje, em tempos onde o conhecimento é muitas vezes diluído sobre tantas coisas que nenhuma delas recebe o aprofundamento necessário? Decerto tentar encontrar esse “lugar” parece uma tarefa um tanto árdua, mas as redes sociais não permitem fugas: estão todos aí, por aí, vociferando e tomando vozes (vozes antes inimagináveis e que agora propiciam a descentralização do poder opinativo). O direito à opinião é um bem público, conquistado com a democracia que a internet proporcionou a todos.  Há de se enxergar a beleza que essa poética virtual (mas não menos sensível e sensibilizadora) nos empresta, onde todos (podem ser ou) são iguais. Nunca houve tantos blogs, tantas opiniões relevantes, tantos conteúdos de interesse do coletivo, tantas ideias construindo um debate universal. Também nunca houve tantas picuinhas desnecessárias, tanta esquematização face a reais problemas e desestruturação no combate a falsas questões. Aí é factual tentar separar os leões dos cordeiros, ou seja, dar moradia e espaço a todos, apenas sabendo localizar e separar estes grupos de acordo com suas próprias vocações e objetivos. Outra vez, bastante subjetivos, embora nesse caso a subjetividade seja mais criada pelo próprio grupo do que pelo público. Imagens são erigidas, não raro, com qualidade e empenho.
Por isso talvez não se consiga pensar hoje em influência maior do que as redes/mídias sociais exercem sobre a difusão do saber cognitivo. Twitter e Facebook aproximam as pessoas, unem os discursos, revitalizam as potências em massa, formam os enxames. São, mesmo, bens necessários – e comum a todos. Essas tais redes são matérias vivas onde afloram links por onde ululam diálogos consistentes não só direcionados ao pensamento estabelecido, mas ligados a novas culturas, novas percepções, novos grupos críticos e ideais unidos. Também nunca houve tantos críticos, tantos olhares sobre a cultura – sobre a nossa cultura. Resta-nos sempre a esperança de que o conjunto de forças e ações empenhadas seja capaz de equilibrar as coisas.
Para leitura e acompanhamento:
Cahiers du Cinéma (em francês)
Film Comment (em inglês)
Sense of Cinema (em inglês)
Contracampo
Cinética
Filmes Polvo
Cinequanon
Zingu
Filmologia
Filme Cultura
Revista de Cinema
Textos recomendados acerca da crítica:

Ensaio: Fazer crítica: http://tudoecritica.blogspot.com/2010/12/ensaio-fazer-critica.html

Os blogs estão matando a crítica de cinema: http://sombras-eletricas.blogspot.com/2010/08/os-blogs-fazem-mal-critica-de-cinema.html por André Renato
O cinema de autor: o papel do crítico de cinema na concepção dos diferentes olhares: http://websmed.portoalegre.rs.gov.br/escolas/revistavirtualagora/materiais/O_Cinema_de_Autor_Fernando.pdf por Fernando Telles de Paula
Olhando para o bico de meu sapato: http://setarosblog.blogspot.com/2010/12/olhando-para-o-bico-de-meu-sapato.html por André Setaro
The Critical Function: http://home.earthlink.net/~steevee/function.html por Serge Daney?

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