18th Feb2011

Bravura Indômita

by Pedro Henrique Gomes

O consumo estético no cinema dos irmãos Coen sempre foi importante, pois esteve suportado por uma linguagem estético-narrativa diferenciada, de opções claramente antirelativizantes – suavizar nunca foi uma “questão”, sempre um recurso de linguagem aliado à potência narrativa em vigor. Mise en scène nunca lhes faltou. Problemas com a forma inexistem em sua obra. O que algumas vezes questiona-se é o conteúdo.  Enveredam agora pelo filme de gênero, no caso o faroeste, apostando na desconstrução que o gênero vem sofrendo. Peculiares a quase todos os personagens do faroeste norte-americano de John Ford (e de Hawks, Peckinpah, Hathaway): a dureza e a rispidez, o escárnio e a bravura, a robustez e a saliência, a coragem e a audácia. Em flashback, Mattie Ross (Hailee Steinfeld) nos conta como perdeu o pai, aos 14 anos, assassinado a sangue frio por Tom Shaney (Josh Brolin). Apesar da idade, Mattie demonstra empenho, coragem e audácia ao dar início à busca pela vingança de seu pai. Acaba escolhendo Rooster Cogburn (Jeff Bridges), xerife não ortodoxo, para ajudá-la em seu torturante caminho. Cogburn precisa da grana, então acaba aceitando. Junto deles surge LaBoeuf (Matt Damon), um policial texano que está atrás de Shaney por este ter matado outro homem.

Um ambiente de desolação, de espaços vazios, onde a vastidão do deserto não é mero jogo de contrastes com a miudeza dos personagens. Bravura Indômita se encontra num cenário cinematográfico por excelência, logo romântico, que é onde se situa a mitologia norte-americana nesse novo filme dos irmãos Coen. Bravura Indômita, baseado em livro de Charles Portis, parece estranho aos outros filmes de gênero, pois não possui soluções fáceis: o mundo sem heróis ou algozes, sem mocinhos ou bandidos, sem lágrimas ou sorrisos, sem príncipes ou princesas. Um cinema de inflexão do sentido das coisas, que valoriza a desvalorização, a imoralidade, a antiética como as virtudes comuns ao Homem. Mas, apesar da dicotomia, há outra abordagem – que já começa na mise en scène. Pode se falar em romantismo, pois, não há outro olhar em True Grit: trata-se do filme mais romântico dos irmãos Coen. Essa poética está descrita tanto na imagem quanto na palavra, em que pese o distanciamento entre elas, funcionam em sintonia com a découpage. O cenário (plano, a imagem, o quadro) nada carrega de glamour: deserto, poeira, unhas sujas, dentes podres, sangue e vísceras. Onde está o romantismo em Bravura Indômita, então?

O romantismo está em LaBoeuf, que desentende-se com Cogburn e acaba abandonando ele e Mattie, deixando-os sozinhos com o silêncio dos carneiros. Como todo bom amante, acaba retornando para junto daqueles que ama. Volta justamente num momento delicado para Cogburn e Mattie. Logo depois resolve abandonar a jornada novamente, numa das cenas mais belas do filme, diz a Mattie que vai desistir da busca por Shaney. A luz da lua, separados por uma cerca, LaBoeuf estende a mão para a garota, que hesita em ver o companheiro de jornada abrir mão de seu objetivo. A troca de olhares que rola é mais necessária do que o toque – que não pode acontecer; não ali, não agora, não naquelas circunstâncias. Por duas vezes presenciaremos seu abandono precipitado para depois assistirmos seu retorno triunfal. LaBoeuf retornou porque ainda queria matar Shaney ou porque tinha a necessidade de estar junto de Mattie e Cogburn? Com toda sutileza e elegância, os Coen organizam essas cenas em momentos-chave do filme. Bravura Indômita torna-se um filme onde o coadjuvante é também protagonista, pois não há espaço para diferenciações temáticas ou explicações secundárias.

Dentre as diversas cenas que ilustram o romantismo coenniano, peguemos duas para iniciar. Na primeira, Cogburn e Mattie estão postados no meio a uma montanha, aguardando suas vítimas com uma emboscada mortífera. Quem chega é LaBoeuf, para depois ser surpreendido pela presença inóspita de alguns caubóis maltrapilhos que o cercam. Então Cogburn empunha seu rifle e o salva. Numa outra, Mattie está na mesma posição, desta vez com LaBoeuf, enquanto Cogburn corre perigo montanha abaixo. Classicamente, LaBoeuf salva-lhe a vida. Não restam precipitações: Bravura Indômita é um ménage a trois dos amores incautos. Não há sutileza maior e ao mesmo tempo não há maneira mais franca de externar um sentimento: de alguma forma Mattie precisa tanto de um quanto de outro. Num outro momento, Cogburn suga o veneno de uma cascavel das mãos da menina Mattie que acabara de ser picada. Há “duas cenas” nesta cena. A primeira é a do xerife rígido, duro e impiedoso, que cospe com gana o veneno para longe do corpo humano. Sua silhueta não é a das mais amigáveis para com a situação que se apresenta. Na segunda (que é outra forma de olhar, de perceber e de sentir o filme), o homem apaixonado, o pai, o protetor é quem suga o veneno da mão da garota para salvar-lhe a vida, nem que para isso precise colocar sua própria condição em risco. É a maneira de demonstrar que tudo depende do olho de quem vê. A readequação até existe, mas a essência continua a mesma. O velho Oeste ainda é lugar a ser explorado pela imagem cinematográfica.

No final, Mattie demonstra a fragilidade que ainda não havia demonstrado no calor de seus 14 anos, na jovialidade de sua austeridade. Já mais velha, descobre a vida ao recordar do passado, para somente então compreender que aquele tempo já passou e que o que fica é o sabor doce e amargo da lembrança. Não há objetos guardados para conservar a memória (Shakespeare diria: conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te). Há o sentimento de um amor intenso, porém inacabado, que não pôde se consumar para além do necessário, que não pôde se concretizar em longevidade e palavras (em relação a sentimentos, pouco é dito). Como nos mais poéticos romances. Como nos mais poéticos amores. A imagem vive na eternidade.

(True Grit, EUA, 2010) De Joel e Ethan Coen. Com Hailee Steinfeld, Jeff Bridges, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper.

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