13th Feb2011

Cisne Negro

by Pedro Henrique Gomes
Há certo pensamento reinante na escrita crítica de cinema que adota o discurso de que um filme precisa sempre esconder as coisas, manter mistérios, metaforizar, sugerir mais do que mostrar. E realmente isso é muito importante, mas a ausência ou a presença do “dizer e/ou mostrar” não é capaz de determinar o valor de filme algum; pelo contrário, demonstra mais a deficiência do olhar, da percepção do crítico quando este reduz um filme a estas questões. Aronofsky foi sempre um cineasta das coisas simples, das coisas ditas. Em seu cinema, o que existe é para ser mostrado. E não é este o problema deste seu novo filme. Não há mal nenhum em dizer as coisas, o pecado chave, e que se aplica a Cisne Negro, é dizê-las duas vezes – um problema clássico não de conteúdo, mas de forma. Nesse sentido, Black Swan acaba sendo um filme bastante pobre narrativamente, resultando numa “grande e complexa” viagem em linha reta, com pequenas piscadelas de genialidade – e que não dizem respeito àquelas cenas onde o espelho reflete a outra personagem (o cisne negro) que Nina quer ser coçando suas costas, numa banalização muito clara do que já está furtivamente sendo dito através de sua própria dança e de seu próprio olhar (quase sempre às lágrimas): Nina só vai ser aquela personagem quando for consumida pelo tesão carnal (daí o detalhe no corte das unhas) que o Cisne Branco não possui.
Por mais que Aronofsky utilize todos os recursos cinematográficos aos quais dispõe (trilha sonora, close em Nina, fotografia dark), os momentos mais promissores do filme, e são estes que ajustam certo interesse pelo drama da protagonista e que causam o efeito perturbador tão buscado por Aronofsky com sua trilha 100% narrativa em todas as cenas do filme (mesmo em conversas informais), são aqueles em que a música se faz necessária: abertura (sonho) e encerramento, mais a sequência da balada, onde a erudição de Tchaikovsky dá lugar a uma batida beatnik – aqui sim somos envolvidos numa habilidosa operação mental. Nas demais, ela é apenas elucidativa no que diz respeito as suas imagens: faltam imagens potentes que não necessitem de um fundo musical pseudo-envolvente. Nesta cena da balada (que é a cena que dá início ao desbunde, a transmutação de Nina do Branco para Negro) tudo funciona para elevar a sensação de inconsciência da personagem (e do espectador) ao extremo: a música da festa, a convulsão dos flashes de luzes e a piscadela deles, a multidão enlouquecida pelo efeito do ecstasy, o flerte com um rapaz qualquer, a manipulação aparente que Lilly a impõe. Uma sequência emblemática e assustadora, pois coloca as ideias do filme no lugar mais apropriado: a simplicidade vai ser sempre mais eficiente que a extravagância numa esfera de profundidade dramática.
Cisne Negro não seria o filme que parece ser se a música fosse retirada quando Nina não está ensaiando (cenas com a mãe; cena no trem). Seria um filme mais interessante caso pensasse menos nas sensações do espectador e mais nas da personagem. Está claro que Nina é uma personagem kafkiana, de degradação moral e ética, e sua transformação ao longo do filme a proxima ainda mais disso (A Metamorfose) – transformação necessária aplicada também ao personagem de Mickey Rourke em O Lutador. Está claro, também, que todo o universo farsesco e intangível construído ao seu redor (as concorrentes ao posto de Rainha Cisne) representa claramente a carência maior do filme, que diz respeito a sua própria autoestima. Aronofsky crê muito pouco em suas imagens, chegando ao extremo da insuficiência na decupagem a atropelar sua própria narrativa: uma cena parece só uma desculpa para a próxima, o corte vem sempre antes do efeito da cena perdurar na imagem (fixar-se na memória), e a pressa rouba-lhe a intensidade (que ele a todo instante tenta compensar com a música pesada e dramática de Tchaikovsky), retira-lhe o escárnio, emprestando-o somente a superfície, o efeito fácil. Fica claro que Cisne Negro não peca por não ter a ideia, mas sim por não saber expressá-la por completo. Funciona muito a cena em que Nina está ensaiando (já as vésperas da apresentação) e o pianista deixa o salão e vai embora (“eu tenho vida”, diz). Ela continua lá, agora sem a música, com seus devaneios, ensaiando e alucinando ao som da obscuridade de sua criação (Cisne Negro).
Nina (Natalie Portman) é uma mulher de 28 anos (flor da idade), porém humanamente atípica: não pensa em ter filhos, aparentemente não faz muito sexo (só alucinadamente), não sai à noite, não tem amigas fora as da companhia de ballet. Quando Beth MacIntyre (Winona Ryder) está para se aposentar, Nina enxerga aí sua chance como Rainha Cisne (papel principal da peça O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, em que a protagonista interpreta o Cisne Branco e Negro). O dia a dia de ensaios exaustivos e a extensão deles até em casa vão denotando a obsessão de Nina pelo papel. A fixação começa a tomar conta da menina. Nina preocupa-se mais com a concorrência das colegas, sendo Lilly (Mila Kunis) a mais ameaçadora delas. Quando ela é escolhida para o papel, sua tormenta não passa, pois o medo de perder a personagem (quando na verdade ela precisa é encontrá-la) lhe tira o chão. Aventar o desejo de se tornar duas torna-se uma necessidade para Nina, insiste com ela o diretor da peça Thomas Leroy (Vincent Cassel). A mãe a primeira vista mais atrapalha do que ajuda (Barbara Hershey), parece a personagem típica que, na impossibilidade de ter sido, se entrega para que seu semelhante seja –  aquilo que não foi.
Facilidades visuais são utilizadas até o esgotamento de suas possibilidades: todos os personagens vestem preto quando contracenam com Nina (o negro que escapa a Nina, seu desejo absoluto, fonte de sua insanidade e compulsão; o Cisne Negro que ela precisa não só incorporar, mas tomar como parte de si, viver a personagem até fora dos palcos, fora da dança: na vida). Fruto de sua precipitação, o Cisne Negro é o lado sensual que lhe falta (e que sobra em Lilly, sua rival na briga pelo papel principal). A castidade, a inocência, a leviandade, a mocidade, o amor ela possui, precisa dos antônimos. Nina precisa tornar-se outra personagem, a personagem que Lilly já é. Aronofsky representa essa pulsação através das diversas visões que Nina tem de Lilly (e também de Beth). Metamorfoseia-se o corpo de uma (Nina) no corpo de outra (Lilly e/ou Beth) para transmutar-se na Rainha Cisne, elegante e desejante. Essa mutação constante está não só no primeiro plano, que toca a obsessão de Nina, está também nos detalhes: na unha que rasga a pele, na pele que é arrancada, nas pernas que são quebradas, nos olhos que enraivecem tornando-se vermelhos, nos dedos dos pés que se colam. Só sentiremos plenamente essa mudança na sequência final, quando as lágrimas não lhe saem mais, quando a expressão de medo e aflição não transparece, quando o olhar é o mais austero e vibrante possível.

(Black Swan, EUA, 2010)
De Darren Aronofsky
Com Natalie Portman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Barbara Hershey

One Response to “Cisne Negro”

  • Panpan

    Seria, poderia, se… Caso, mas…

    Nestes casos, não existiria Cisne Negro.

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