07th Feb2011

Um Lugar Qualquer

by Pedro Henrique Gomes
A vida de Johnny Marco (Stephen Dorff), como a conhecemos tão logo o filme tem início, é de aparências. Ator reconhecido mundialmente, porém enfrentando problemas em sua vida pessoal, não parece satisfeito com os rumos que sua vida levou – se é que conhece a plenitude da vida. A presença da filha Cleo (Elle Fanning) só vai aumentar esse sentimento de angústia. Após um acidente de trabalho, Johnny passa um período recuperando-se no hotel Chateau Marmont (novamente o filme se passa grande parte num hotel, espaço cinematográfico por excelência, já utilizado em Encontros e Desencontros), e é quando recebe a visita da filha. Aos poucos a presença da jovem vai abrindo seus olhos para a ignorância cega que toma conta de sua vida. Seu mundinho de faz de contas (bebidas, passeios sem rumo em sua Ferrari por estradas sem fins, shows particulares de dança por strippers, campanha de divulgação de filmes, coletivas para a imprensa, quartos de hotéis grandes demais para dois) faz par a pequenez de sua espiritualidade. Não há história de vida para ser contada, Johnny é um personagem emblemático dentro da filmografia de Sofia Coppola: personagem sem passado, sua vida inteira parece a mesma – até a aquela a qual não temos acesso, anterior ao filme, anterior à introdução de sua imagem. Vem daí a ideia narrativa do filme: construir novas imagens para doá-las a seu personagem. É nisso que se baseia Um Lugar Qualquer: criar imagens propícias a um novo caminho para Johnny, dar-lhe um rumo, devolver-lhe a vida.
Mas é tudo muito polido, milimetricamente ajeitado, o que resulta num filme sem arestas, numa imagem onde nem mesmo a brisa do vento é capaz de adentrar. Somewhere fecha-se em si mesmo, não possui aberturas, somente as renega, tornando a feitura da imagem do personagem ainda mais nefasta em sua incompletude. Mas daí entra a proximidade com Encontros e Desencontros, onde justamente o mesmo universo filmado (ator decadente que passa a olhar a vida com outros olhos a partir de uma jovem) tinha a veemência necessária para a contemplação da estória e dos personagens. Um Lugar Qualquer começa justamente de onde termina Encontros e Desencontros: a singeleza de um beijo de despedida lá é o recomeço da busca por um novo beijo aqui. A diferença fica mesmo na abordagem. O que antes era uma profusão de diálogos e cenas de extrema saliência, agora resulta num olhar embaçado, numa visão turva perante a complexidade de seu próprio protagonista. O que pesa a favor do filme acaba sendo a sempre aguda percepção fílmica de Sofia no que toca a precisão de planos e elaboração da mise en scène.
Johnny parece inadequado ao mundo em que vive, a todo instante lutando contra sua própria existência. Homem de poucas palavras, dono de uma presença física que só existe pelo fato de ele ser um famoso ator hollywoodiano, caso contrário, a falta de conhecimento de si mesmo e a quase inaptidão com outras pessoas senão mulheres fáceis e strippers o tornariam num qualquer. Nesse sentido, são diversas as cenas em que Sofia elucida essa ausência da palavra, essa falta de comunicação entre as partes. Numa delas, Johnny tenta falar alguma coisa para a filha, que não escuta nada em razão do barulho do helicóptero que aguarda pelo pai para ganhar os céus – mesmo que haja a tentativa de comunicar-se, a falência moral do personagem o leva sempre a não ser ouvido ou a não falar. Em outro momento, durante uma coletiva de imprensa, um jornalista pergunta: Quem é Johnny Marco? O corte vem antes da resposta. Toda essa convulsão é capturada muito bem pela câmera de Coppola, que só não constroi um filme realmente afetivo como um todo porque seu discurso limita-se a constatações já há muito conjuradas pelo próprio mainstream norte-americano. Um Lugar Qualquer gira perdidamente fechado em si mesmo.
Se a percepção nociva de Sofia está atenta a operações antes metaforicamente banalizantes do que humanas, então seu filme não pode alcançar a relação necessária de afeto (que mesmo sendo subjetiva, pois vai de cada espectador, é basicamente comum a todos) entre personagem-espectador. Em voga estão as questões morais de Johnny, homem acima das vontades e abaixo dos desejos. O primeiro plano do filme, com a Ferrari de Johnny andando em círculos (saindo e entrando no quadro), joga com sua própria vida (metáfora simbólica fácil): é possível fazer o que se quer com quem quiser, mas não é possível sair do lugar. Diante de tais circunstâncias, o filme termina da única maneira possível: Johnny parando seu carro no meio da estrada, e saindo a caminhar rumo ao cenário deserto. O quadro, outrora fechado num mundo sem destino, está agora aberto, olhando para frente.

(Somewhere, EUA, 2010) 
De Sofia Coppola
Com Stephen Dorff, Elle Fanning, Chris Pontius, Caitlin Keats

Trackbacks & Pings

  • Um lugar qualquer: a captura dos lugares comuns – incinerrante says:

    […] Há algo em Um lugar qualquer (Somewhere, 2010), de Sofia Coppola, que, de tão evidente, permanece pouco discutido e parece ser frequentemente tratado como óbvio, sendo mencionado apenas de passagem, como se fizesse parte do pano de fundo da narrativa e não deixasse traços nas figuras que se destacam dela. Trata-se do que faz seu protagonista, Johnny Marco. Sem dúvida, as críticas do filme notam que ele é um astro de Holywood, que vive num quarto luxuoso de hotel e dirige uma Ferrari, que viaja para divulgar seu último filme enquanto obedece a uma rotina de relacionamentos (sexuais, principalmente) tão diversos quanto vazios. No entanto, entre tudo o que li, é às ideias de cotidiano e de tédio, de aparência e de superficialidade que as críticas do filme remetem a figura do protagonista, seja para aproximá-lo de nós – de nosso cotidiano sem acontecimentos e de nosso vazio existencial – seja para afastá-lo – por sua futilidade e por sua inconsequência. […]

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *