28th Jan2011

Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas

by Pedro Henrique Gomes

Existem apenas três planos em Tio Boonmee: a vida, a morte e o cinema. O filme, então, esparrama-se por meio deles.

A vida

Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas abre com um plano simbólico, quase semiótico: uma vaca tentando desprender-se de uma árvore a qual se encontra amarrada. A cena sintetiza toda a ideia de vida (de viver) que está presente no filme (como em toda a obra de Apichatpong): a vontade de ver-se livre de amarras, de descolar-se de um passado para viver o presente, de reaver/recordar as coisas passadas para viver e morrer plenamente. Depois de muito lutar, a vaca consegue soltar-se, desprender-se de uma não-vida. Metaforicamente, a vaca é a morte que invade a vida, invade a vida terrena do Tio Boonmee (que sofre de insuficiência renal e está passando seus “últimos dias” próximo da natureza, essa nossa estranha), talvez para lhe buscar ou talvez para lhe mostrar um caminho possível rumo ao fim da vida. Não vemos o encontro esperado entre os dois, mas sabemos se tratar de um plano inevitável, inadiável. Ou seja, ele vai acontecer mesmo que não seja mostrado (ou visto, pois pode ser invisível) – só não se sabe quando, se na vida ou na morte -, mesmo que o olho da câmera não o abarque. Tio Boonmee (o filme) busca na analogia destas duas vertentes encontrar um lugar comum. Trata-se de relacionar seres físicos a seres não físicos, de mensurar as possibilidades de encontro entre eles para então dimensioná-los num só mundo. A vida e a morte, estes universos tão distantes, são um só.

A morte

A morte chega para Boonmee de várias formas. Seu sobrinho, outrora desaparecido, ressurge em forma de um macaco que só aparece no escuro. Portanto, meio homem, meio macaco, meio fantasma, meio vivo, meio morto. Num plano de absoluta imersão metafísica, somos lentamente conduzidos a esse encontro entre Boonmee, seu sobrinho macaco Boonsong, e o fantasma de sua esposa na varanda da casa – uma imagem a qual precisamos nos acostumar gradativamente, como o surgimento da própria esposa falecida de Boonmee, que vai aparecendo através de um suave fade in, até ganhar todas as cores de uma pessoa em vida. Em pauta estão às escolhas de cada um. Boonmee, muito maduro, só pode as aceitar. As formas de aceitação são várias: deixar-se tratar pelo fantasma da esposa, ser tragado pela memória, e, por fim, escolher um lugar para morrer. Nesse emaranhado de situações, o espectador se vê compenetrado na tentativa de relacionar as coisas: o que é real? Até onde vai realidade? O que é fantasia? Até onde ela vai? O que é sobrenatural? Ele existe?

A vida e a morte

A vaca representa essa dualidade, essa analogia semiótica. Ela simboliza tanto a vida quanto a morte. A soltura e a liberdade são consequências próximas a um fim de vida. Ou seja, anunciam a proximidade da escuridão, do último cerrar dos olhos, do último acordar. Boonmee, que vive esse fim, esse derradeiro fim, concentra-se no olhar, no toque, na vontade de estar junto, de enfim recordar suas vidas passadas. O contato com a natureza serve como metáfora para simbolizar a vida, mas também funciona como símbolo de uma despedida. Notamos isso lá no primeiro plano, quando a vaca desprende-se da árvore (vida) e ruma para encontrar algo ou alguém (morte). Em comum, tanto a imagem da vida quanto a imagem da morte, está a necessidade de transformação de um estado para outro. Algo como sair do sólido para o gasoso, do físico para o não físico. Metonímias de representações, de possibilidades de associação entre estes dois estados, Tio Boonmee pode então recordar do passado para viver o presente e morrer no futuro.

O cinema

De longe são sentidas as influências aplicadas ao cineasta tailandês – que não são exclusivamente cinematográficas. Vamos de Hou Hsiao-hsien (as conversas, a fluidez de um plano estático) a Andy Warhol (a cena do peixe poderia muito bem ser um quadro surrealista de Warhol), passando por Chantal Akerman (a própria cena, já clássica, da “reunião familiar” na varanda, com a natureza ao fundo, poderia ter saído de qualquer filme da cineasta belga, ou até mesmo de um Rivette). Mas o importante é que temos aqui não um cineasta focado em demarcar sua obra com assinaturas ou referências, e sim um autor comprometido com a conexão de suas temáticas (a vida e fantasia) e seu cinema. A clareza do olhar, a limpidez da câmera (sem arroubos estilísticos) e a sutileza do diálogo são constatações básicas quando se fala de Tio Boonmee, até primárias. É só dessa forma que se pode alcançar o efeito desejado, só assim podemos construir um diálogo com o filme (mais especificamente com os personagens), enxergá-lo, além de vê-lo. Esse cinema só pode ser dele, só pode exclusivamente a ele pertencer, pois não há imagens mais adequadas quando falamos do contemporâneo do que aquelas vistas e revistas no cinema de Apichatpong Weerasethakul.

(Lung Boonmee Raluek Chat, Tailândia, 2010)
De Apichatpong Weerasethakul
Com Thanapat Saisaymar, Jenjira Pongpas, Sakda Kaewbuadee, Natthakarn Aphaiwonk

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