22nd Jan2011

Além da Vida

by Pedro Henrique Gomes

Clint Eastwood estava precisando de Além da Vida. Em Clint (como em todo bom cineasta) vai ser sempre mais interessante discutir a imagem do que o estilo. Estilo é evidente, é fácil demais, raso para povoar a análise. Barateia o filme, reduz seu discurso. Hereafter, esse filme tão questionado por suas opções de abordagem, na verdade sequer possui um caminho específico por qual seguir. Daí talvez venha o desapreço que a crítica americana teve com o filme: sentiu-se a necessidade de uma fruição mais corretinha, menos fugidia. Há claramente uma reconstrução de sentidos, de olhares, de perspectivas. Não há mais a noção clássico-romântica de um cinema pré-conceitual, pré-moldado pelos ditirambos de Dionísio. A roupagem é nova, portanto o espectador precisa se despir de qualquer pré-olhar. Não existe expectativa, aqui ela é inimiga. Não é mais o cinema lúdico de Dívida de Sangue, A Conquista da Honra, Menina de Ouro e Invictus. A narrativa é um arcabouço de irrefreável incompletude, precisa ser paciente para observá-lo e construí-lo através das imagens. Além da Vida se passa por aí: num plano no meio disso tudo, nem abaixo nem acima da terra e do céu; está justamente tentando encontrar seu lugar em alguns destes “mundos”.

Trata-se de outro cinema, outro olhar, outro Clint. E muito mais interessante (e interessado) aos olhos do mundo que relata. É como estar diante de uma página em branco, de um roteiro que ainda não foi escrito, de um livro que sequer tem título – o título ainda é algo a ser pensado pelo coletivo, na metáfora da comunicação. Já temos a história, mas não sabemos como olhar para ela, como dar vazão a seus sentimentos – daí a necessidade do toque, do abraço (às vezes é necessário dois). Além da Vida é todo sobre isso, sobre pensar, tocar, sentir, conversar, silenciar, inclusive, e, sobretudo, comunicar. Um filme que precisa de um companheiro fiel, que não se atenha a seu rigor estético (pleonasmo bárbaro em se tratando de Clint Eastwood). Não é este o filme, não é esta a ideia. Interessante é notar como os fluxos do cinema de Clint parecem aqui revigorados, cheios de substância, desprendidos de qualquer ritmo, qualquer “condução narrativa”, qualquer apelo dramático. A essência agora é outra: sai-se de uma zona de conforto (Hollywood) vai-se filmar no pátio do vizinho – de Paris a Londres, passando por São Francisco antes. É outro mundo, no filme e na obra (noutra metáfora sutil).

Tão logo o filme começa já notamos esse processo em andamento. George (Matt Damon) é um norte-americano que, depois de uma complicação numa cirurgia, consegue conectar-se com pessoas que já morreram a através de familiares destes que ainda vivem. Ganhou muito dinheiro com aquilo que, diferentemente do que pensam todos, chama o “dom” de maldição, pois ele o impede de levar uma vida normal. Passa então a trabalhar numa fábrica e não faz mais esse tipo de comunicação. A francesa Marie (Cécile De France) é jornalista, mora em Paris, mas recentemente sofreu uma experiência de quase morte na Tailândia, onde ocorreu um tsunami – com efeitos especiais bonitos, mas longe de ser a sequência mais bela do filme, pois há tantas outras. Na capital da Inglaterra, Marcus (Frankie McLaren/George McLaren) perdeu o irmão gêmeo num acidente de carro. Sua mãe, alcóolatra, decide o doar para adoção seguindo o conselho de assistentes sociais. Marcus passa então a conviver com a ausência do irmão (minutos mais velho, como dizia), até que decide procurar George na tentativa de falar com irmão. Marie acaba publicando um livro (Hereafter) sobre sua experiência, e vai lançá-lo numa feira em Londres, para onde também vai George (fã de Charles Dickens, sutileza do roteiro). Além da habilidade ao lidar com narrativas paralelas que, para além da boçal construção de acasos que irão aproximar os personagens, Clint mantém a fruição narrativa com total domínio de um cineasta já experiente com roteiros divididos em núcleos.

Em todas as cenas em que há a “comunicação”, a operação se repete: sentam-se os dois, comunicador e a ponte para a ligação, frente a frente; a luz é pouca; o silêncio é necessário; a tensão sobe (sem manipulação musical barata, como a vista em Invictus, e até mesmo no potente Gran Torino); a dor da lembrança toma conta; pedidos de desculpa do comunicador; lamento. Nunca vislumbramos o “além”, o máximo que temos são visões expostas a uma luz muito forte para que possamos enxergá-lo. O filme assume essa verborragia, essa dilatação dos dois mundos que o separam: o real e o extracampo. Em momento algum o roteiro de Peter Morgan nega a existência de uma crença, de uma credulidade. A fé é presente em todos os personagens (até mesmo converte ateus em crentes no “poder superior”). Ainda mais polida e inteligentemente, o filme não toma partido de uma religião (palavra que nem é dita no filme) para tirar proveito de seus conceitos. Além da Vida tem sua própria crença.

Não há o desejo de construir uma imagem e desmistificá-la (como em Gran Torino), mas sim uma vontade de se fazer valer pela simplicidade narrativa e pela desestruturação que ela causa no filme (causa-efeito). Trata-se de uma narrativa que não responde a movimentos automáticos. Nota-se que, apesar do jogo de casualidades, os personagens de Além da Vida não tem rumos pré-definidos, ainda não estão prontos para a vida (precisam antes comunicar-se com o “além”: estão todos em construção, conhecendo-se ali mesmo, agora mesmo, na frente de nossos olhos. Estão, portanto, todos eles, duelando contra o olhar do mundo. Essa escolha só enriquece o filme: o espectador não só assiste passivamente, ele faz o filme, o escreve. Uma vez que não há julgamentos, um filme pode ser vários, pode não ter um final após a sessão. Além da Vida termina quando seus personagens parecem ter encontrado um caminho, uma rota, mas que ainda estão em processo de desafogamento. Não há melhor maneira de se imortalizar uma imagem.

(Hereafter, EUA, 2010) De Clint Eastwood. Com Matt Damon, Bryce Dallas Roward, Jay Mohr, Cécilie De France, Richard Kind, Jenifer Lewis.

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