17th Jan2011

Machete

by Pedro Henrique Gomes
Se em Planeta Terror tínhamos o desejo impulsionado pela representação de fazer homenagem, de ser homenagem, aqui temos o próprio fruto desse cinema. Não há mais homenagens a serem feitas, personagens a serem reverenciados ou citações a serem erigidas. Machete é seu próprio filme, quer construir sua própria imagem, seu próprio mito; está ele mesmo colocando-se face a questões de dramaturgia e exageros próprios ao cinemão B sem a necessidade de explicitar nada disso. Somos aceitos para vislumbrar o filme, convidados de honra para participar do desfile macabro de sangue e vísceras que pululam a todo instante na tela com a potência de um soco. É nesse cinema que Robert Rodriguez (aqui dividindo a direção com seu montador Ethan Maniquis) parece mais feliz: ele encontra espaço no bizarro para representar o real. Um cinema que vem se criando ao longo dos anos, se fazendo rigoroso na ideia e emblemático na imagem – à exceção da série Pequenos Espiões, que talvez existam somente para que Rodriguez possa filmar o que realmente quer. E até aí encontramos a “obra em construção”, comum a todo autor. Machete, personagem agora alçado à condição de protagonista, antes de estrelar o trailer que deu origem ao filme em voga, já aparecia em Pequenos Espiões; e daí, de antemão, já sabemos que seu nome é Isidoro Cortez, dado que o filme não faz questão de colocar em evidência – aparece brevemente na tela do computador.
Não há heróis no cinema de Robert Rodriguez. Para Machete (tanto filme quanto personagem), Rodriguez não presta julgamentos ou sentenças: a equivalência entre herói e bandido é o que constroi a mitologia ao redor do personagem. Machete não serve para herói, mas não se enquadra no perfil do bandido. É um marginal que, não satisfeito com o estado das coisas, procura fazer (a sua) justiça, não se apegando muito ao fato de estar ou não ao lado da lei. A lei nem sempre é o certo, como diz a personagem de Jessica Alba. E isso não reduz o discurso do filme (que é um discurso essencialmente cinematográfico, do jogo imagem-imagem). Aliás, somente o potencializa. Rodriguez, cineasta nascido na fronteira Estados Unidos-México, por onde se passa o filme, compreende muito bem a abrangência da temática da imigração, portanto posiciona seu filme da única maneira em que ele pode funcionar: através do caos. O discurso passa a ser assimilado em cada cena, as temáticas (religião, imigração, contrabando, corrupção) são tomadas providencialmente como narrativas paralelas a do personagem que, aos poucos, vai as combatendo.
Machete assume seu exagero, forja sua teatralidade de horrores através de imagens não menos rígidas do que qualquer filme que um cineasta norte-americano tenha feito neste início de século. A primeira sequência do filme já dá o tom: nela, Machete (Danny Trejo), que é um agente federal, acaba presenciando a morte de sua esposa pelas mãos do traficante de drogas Torres (Steven Seagal). Três anos depois, agora trabalhando como operário, ele recebe uma oferta de trabalho de Booth (Jeff Fahey): matar o senador John McLaughim (Robert De Niro), que faz campanha para a retirada completa dos imigrantes ilegais do México. Depois Machete descobre que se tratava de uma emboscada, um plano para fazer o raio X dos mexicanos e torná-los terroristas aos olhos da população. Com a ajuda da agente do Departamento de Imigração Sartana Rivera (Jessica Alba), da filha de Booth (Lindsay Lohan), de um padre (Cheech Marin) e de Luz (Michelle Rodriguez), Machete sai em busca de sua defesa contra Torres, Booth e McLaughim. Sem romantizar qualquer um destes personagens, Rodriguez constroi um filme acima de qualquer constatação de valores ou éticas. As personas falam por si mesmas, não necessitando qualquer pré-julgamento.
O filme já se conceitua pelo elenco: não poderíamos imaginar outro ator (mesmo se este personagem ainda não existisse antes do filme) senão Danny Trejo para encarnar Machete. O personagem pede uma figura meio brutal meio sensível, meio frio meio caloroso; olhar lancinante (como suas facas) e pele fustigada, futricada. Trejo, que já é velho parceiro de Rodriguez, veste como ninguém a trágica história de seu personagem. Daí a ideia de recolher atores dos mais variados perfis para corresponderem a seus respectivos characters. De Niro faz o mesmo tipo que vem construindo as bases de sua fase pós-Máfia no Divã; Lindsay Lohan representa uma caricatura de si mesma; Michelle Rodriguez já é figura constante no cinemão B hollywoodiano e domina bem os arquétipos dos personagens; Steven Seagal reveste outro personagem que não é o do herói interiorano. Já somos envoltos pelo filme mesmo antes dele começar: o diretor não precisa “fazer acreditarmos” nas imagens que mostrará, explicar para o espectador que a função do filme é extrapolar os limites cinematográficos até o estiramento de suas cordas vocais. Já está tudo dito antes de entrarmos na sala; esse filme já começou. Ganhamos então outro componente importante na narrativa: não é necessário mimetizar Machete (personagem) para lhe conhecer. Já o conhecemos, sabemos de sua robustez, de sua habilidade, de sua lógica de vida. Postemo-nos, então, ante sua mitologia.
(Machete, EUA, 2010) 
De Robert Rodriguez e Ethan Maniquis
Com Danny Trejo, Jessica Alba, Michelle Rodriguez, Robert De Niro, Cheech Marin, Steven Seagal, Jeff Fahey

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