09th Dec2010

A Rede Social

by Pedro Henrique Gomes
A Rede Social nos faz olhar para um lado, mas talvez esteja apontando para o exato oposto. A construção das imagens, não importando sua procedência, confere a expertise de David Fincher ao jogar com elementos exclusivamente cinematográficos. O protagonista do filme é Mark Zuckerberg (a este altura você já deve saber quem ele é), jovem que se move em cena sob o embalo de ritmos musicais (seja pela fala, pela prontidão com que apresenta a réplica a um questionamento ou até mesmo pelo caminhar apressado) -, algumas vezes indelicados – proporcionando a fluidez do material. Fincher utiliza a cartilha clássica do cinema de entretenimento: segurar o máximo possível a tensão do filme, soltar aos poucos as pontas soltas da história, criar o protagonista e o antagonista, mesclando entre o drama e o humor popular.
O argumento não se sustenta: as bases construídas para alicerçar a história do “jovem-nerd-que-não-pega-ninguém-e-é-tido-como-babaca-por-todos-mas-que-vira-gênio” funciona muito bem em crônicas jornalísticas rasas sobre ascensão “do mais fraco” rumo ao Olimpo. Em Cinema a estrutura precisa ser outra, essas “bases” não devem estar dispostas a ceder a gestos fáceis. E, de fato, a primariedade de algumas escolhas torna suas consequências incrivelmente boçais. O ato anula a resultado. A Rede Social não liga para a qualquer estética (tanto técnica quanto narrativa) senão a do academicismo, da construção pomposa de detalhes cênicos e gags facilmente degustadas pela velocidade com que se apresentam. É o filme do momento, da hora, do instante, do soluço pontual, da ejaculação precoce. Fincher quer tanto um Oscar, que acaba esquecendo que já vez Clube da Luta e Seven pelo talento de subverter gêneros e metaforizar “grandes questões” com habilidade rara. Mas se nos filmes anteriores o que pulsava era a metalinguagem através da crítica ácida a “tipos de sistema”, aqui o que marca é a batida hightech das músicas (difícil falar em canções) que fazem fundo a diversas conversas entre os personagens, que falam sempre em tons professorais, sabiamente explicitando seus gênios. Não há uma configuração para eles, apenas frases feitas para causar algum efeito rápido no espectador. Podem até funcionar, mas pelo efeito da ilusão. Fincher é um ilusionista.
Fincher manipula os recursos cinematográficos (montagem e trilha sonora) para dar um nó no espectador, pegá-lo por onde ele é mais frágil: os sentidos. Som e imagem num turbilhão de flashes que, uma vez bem organizados, seduzem – ou parecem seduzir. O cineasta hipnotiza por meio de diálogos ágeis (Zuckerberg raramente vai além de respostas monossilábicas e não a toa está sempre correndo contra o tempo, e aqui existe uma metáfora interessante sobre nosso tempo, ainda que bastante óbvia), cortes secos, tornando seu filme “um delicioso passatempo” – e vejam toda a ironia possível nessa sentença, por favor. E para isso não busca muitas coisas senão o efeito rasteiro. A história de A Rede Social é muito simples: Mark Zuckerberg é um jovem analista de sistemas graduado em Harvard que desenvolveu um site de relacionamentos, dando-lhe o nome de Facebook, que imediatamente virou um sucesso. Em meio a isso tudo, claro, intrigas, conspirações, traições e relações de interesse. Nesse sentido, se o objetivo do filme for simplesmente esse, contar a história de criação do Facebook, o filme de David Fincher é virtuoso. Para outras questões, não há análise possível. No efeito do tempo, o esquecimento é um futuro quase certo para A Rede Social.
O diálogo com seu tempo (cada vez mais a tecnologia toma conta dos espaços) é uma evidência clara da mudança de percepção de mundo que tomou conta do cinema de Fincher – e não há qualquer negatividade nisso. Clube da Luta, assim como Seven, não correspondia a nenhum valor estético de precisão de fatos, de elaboração de “imagens agradáveis”. A potência daqueles filmes reside justamente no fato de não prenderem-se a valores morais e éticos, quebrando regras e paradigmas não somente cinematográficos, mas sorvendo do poder de conseguir romper as coisas – e de alguma forma modificá-las. O discurso da falência da moral aqui não é mais necessário, pois “os tempos são outros”, mudaram-se as pessoas, as tendências, as correntes, os grupinhos. A visão de A Rede Social é a de que a catarse social pela instantaneidade é a grande responsável pela profusão das tais redes. Talvez o filme seja sobre nós mesmos, o público ludibriado pela “poesia contemporânea” das ideias. Ou, num suspiro ainda maior de esperança, talvez A Rede Social (bem como Seven e Clube da Luta, não raro os melhores trabalhos do diretor) seja uma grande ironia.

(The Social Network, EUA, 2010)
Direção de David Fincher
Com Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Armie Hammer, Rooney Mara, Max Minghella, Rashida Jones

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