26th Nov2014

O sorriso de Griffith

by Pedro Henrique Gomes

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Há um momento crucial na obra de Griffith. É crucial pois é também definidor de algo da moral griffithiana. Homem de ética protestante, suas narrativas sempre acompanharam os grandes temas humanos, estes aí que não envelhecem jamais quando a matéria é o próprio sentimento (e os “temas” de seu tempo: crises financeiras, guerras, famílias de imigrantes; umas mais ou menos derivadas das outras, como sabemos). Em seu melhor, o olhar de Griffith atingiu sempre a dimensão mais recôndita da dúvida, do medo, do sofrimento, também da alegria. Do homem, da mulher, do mundo. Este momento consiste em mais ou menos uma hora e meia de imagens de Lírio Partido (1919), no corpo, no rosto da personagem de Lillian Gish nesta que é uma de suas mais tristes histórias.

***

Ela nunca teve motivos para sorrir. O pai, bruto, a agredia constantemente. No mais, sua vida era complicada. O patriarca, violento, aos poucos ia lhe retirando algo da vida. Griffith mostra a crueldade dessa relação (em um filme que também é justamente sobre essa relação masculino/feminino, ainda além da questão do racismo). Em um momento definitivo, ela força um sorriso com os dedos. A cena é bastante forte, no auge dramático do filme. O gesto é a exigência de uma circunstância específica, concebido num contrafluxo de dor e esperança e fé. Talvez seja esta a questão (vamos já evitar nossos equívocos: uma das questões): retirar força lá de onde não parece existir mais nada, quase nada, só vestígios, só o sangue.

Um ato que Griffith iria refazer (mais suavemente e, claro, em outra chave dramática) alguns anos depois em Isn’t Life Wonderful (1924), desta vez com Carol Dempster e não com Lillian Gish, que por esta altura já não filmava mais com o cineasta devido a dois movimentos mais ou menos simultâneos: ela havia se tornado figura de proa no cinema americano enquanto o diretor de O Nascimento de Uma Nação (1915) já não comportava mais altos custos em suas produções, inviabilizando, assim, o pagamento de seus honorários. Em fato, o último filme de Lillian com Griffith, se aqui não cometo nenhum engano, havia sido Órfãs da Tempestade, em 1921 – filme que ainda tinha a outra Gish, Dorothy, que até então havia participado apenas de alguns curtas do cineasta.

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