07th Mar2014

Resnais

by Pedro Henrique Gomes

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“Acho que todos vão concordar comigo se eu começar dizendo que Hiroshima é um filme sobre o qual você pode dizer qualquer coisa.” (Rohmer)

“Então vamos começar dizendo que é literatura.” (Godard)

É quando estamos diante da tela que acontece o milagre: todos os sentidos passam a funcionar plenamente numa confusão de prazeres e emoções. Suas imagens não são entregues já para o espectador apreciar suas soluções. Antes é preciso partir de um procedimento que é missão do olho espectral. Tensão disposta, não exposta. Nada de alteridade, da figura Sujeito. Sua filosofia não é apropriada de manuais e a leitura não é primariamente reprodutiva das filosofias do mundo (dos mundos?). Resnais sabia muito bem apresentar intenções de compreensão, de alargamento dos caminhos, não teria, logo ele, a vaidade de apenas colocar questões como se estivesse raciocinando sob a maiêutica socrática ou como se pretendesse fazer metafísica corporativista. Não que se esquivasse das pequenas coisas, dos núcleos, dos princípios e das estruturas de formação da imagem. Antes pelo contrário, é que a imagem, e tudo o que pode vir com ela (todos os desdobramentos, as surpresas, os pecados, os medos, as distâncias), sempre foi sua obsessão.

Por ocasião de Hiroshima Meu Amor, em debate na Cahiers, Godard fala em literatura, Rohmer diz que ele é cubista (“o primeiro cineasta moderno do cinema sonoro”). Rivette fala em fragmentos.

Quem poderia não lembrar das imagens sobre van Gogh? E sobre Gauguin? Picasso/Guernica, lembra? Quem poderia esquecer do verdadeiro suspense impregnado em livros, corredores e espaços abertos na Biblioteca Nacional? Quem poderia singelamente esquecer da voz, do corpo, do movimento, da angústia? Imagino não ser possível se livrar assim tão facilmente dos corpos, das imagens duras da guerra, da narração conscientemente preenchida de dor. Quem poderia esquecer Dela em sua longa caminhada pelas ruas de Hiroshima? Quem seria capaz de abandonar os espelhos, não fincá-los na memória? Quem poderia recompor os pedaços, se embrenhar nos escombros e na penúria, desfragmentar as coisas sem deixar no caminho um pedaço também de si?

(Precisamos voltar, sempre que possível, a Resnais)

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