21st Feb2014

Ela

by Pedro Henrique Gomes

her

Daqui para aqui

O cenário é o seguinte: um mundo após-tudo, onde não há mais pobreza, nem polícia, mundo em que mesmo as telas de toque já são obsoletas, também as relações entre os populares são mediadas pelos aparatos automatizados e inteligentes, os conflitos respiram através de aparelhos, as pessoas se confundem com as máquinas, o trabalho já é indistinguível do tempo livre, a mais-valia nunca dorme. Esse mundo (aqui, mundo é a cidade particular na qual o filme abre espaço e toma corpo), esboço de uma grande Noruega cosmopolita em um futuro próximo, cidade canalizada por tensões esparsas, por necessidades criadas (como sempre foi, é bom sublinhar), pelas mesmas ansiedades e crises de antes, a impotência e a incompletude, o receio e a decepção. Mas o olhar lançado sobre tudo isso neste novo filme de Spike Jonze, sob o ponto de vista da forma, é como se fosse aquele de um cinema religioso que formatasse precisamente as coisas sujas da religião: os dogmatismos, os absolutismos e a moral pretensamente emancipada do Espírito. Calma lá.

O sexo, também ele, está posto como sempre esteve nas obras passadas de Jonze: somente através de uma idealização, de uma conexão que não é sentida na pele, mas operacionalizada mentalmente, é que se faz possível o gozo, quando se faz. Por motivos óbvios ele nos deixa ver apenas uma tela preta: retira para colocar. Retira, pois sua lógica consiste em poder transcender as formas e as interações do ato sem a necessidade de qualquer amostragem. Coloca, pois em lugar da escuridão a projeção do sexo deve ser toda ela construída por quem estiver ali a ouvir as vozes, os lamentos, os gemidos. De um ponto de vista estritamente formal, o artifício é inócuo.

Se é por um lado plenamente constituído por um ímpeto em fazer dessas imagens gelo e fogo, reunião de contrastes e encontro de desejos e necessidades ambíguas, é quase tudo francamente resumido em um plano, ainda no início, em que o personagem de Joaquin Phoenix caminha ao voltar do trabalho, fones ao ouvido, pensamento flutuante. Vemos seu corpo apenas da cintura para cima, o resto da imagem é coberta pelos arranha-céus, imensos às suas costas e por todos os lados: ele é pequeno demais diante de tudo aquilo, diante das coisas grandes, e, a bem dizer, também não tem controle sobre as coisas aparentemente minúsculas, como seu computador, ou, ainda mais, sobre as que lhe são imateriais ou mesmo invisíveis, tal qual seu sistema operacional inteligente.

Sem fluxo contínuo das formas que não sejam simples derivações especulativas, isto é, sem topologia, sem um regimento interno que funcione para colocar as coisas em ritmo e atmosfera para além da estética Coca-Cola, o filme que Jonze elabora não distribui o entusiasmo de suas ideias entre suas imagens ensolaradas e radiantes e sua música suave e veementemente over. Ou talvez seja o caso de dizer que suas imagens não sustentam o drama latente. O que dá no mesmo, pois é este desequilíbrio que lhe destroi e lhe tira o sabor. Talvez porque essas ideias já façam parte de um escopo bastante achatado, incapaz de suportar uma tormenta de conflitos mais rigorosos caso fizesse outras questões um pouco menos óbvias do que um leilão de suposições. Não se trata de reclamar a ausência de previsões futurísticas no que toca a relação humano x máquina (a representação computacional tal qual mostrada no filme já não está muito longe das garras da ciência), pois qualquer relação é sempre imprevisível. Na verdade, é o contrário.

O problema, mal colocado em Ela, é que o filme não permite que toda essa profissão de fazer misticismo do futuro (em outros casos do presente, como em Adaptação e Quero Ser John Malkovich) para traçar um olhar aparente sobre alguma “crise” premente seja mais claro do que um mero jogo de pensamentos e fugas da discussão. Tudo isso para dizer que, embora exista claramente uma intenção de elaborar um raciocínio entre a forma e o conteúdo, todavia reafirma-se o problema maior do cinema de Spike Jonze até aqui, a saber, a sua perfeita incapacidade de buscar entender, através de suas imagens, algo além dos dramas intelectuais do indivíduo. Ocorre que ele crê demais, isto é, confia em excesso, no poder das individualidades.

(Her, EUA, 2013) De Spike Jonze. Com Joaquin Phoenix, Chris Pratt, Rooney Mara, Bill Hader, Kristen Wiig, Scarlett Johansson, Amy Adams, Olivia Wilde, Soko, Brian Cox, Robert Benard.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>