21st Jan2014

Bastardos

by Pedro Henrique Gomes

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O novo filme de Claire Denis não hesita em começar pela barbárie. Duas ou três imagens, regadas por uma música eletrônica de sonoridade destacada, fazem os primeiros instantes de Bastardos. Não só: ele vai terminar inscrevendo na carne das personagens toda a violência possível da imagem e do mundo. Por imagem queremos dizer a forma da exploração dessas agressões cotidianas, as lutas e os conflitos narrativos que o filme busca colocar em crise, mas também como essas tensões se constroem e se relacionam com o discurso da obra (e sobretudo um discurso de cinema que chama atenção para o “núcleo atômico” de todas as coisas). Em paralelo e como estrutura central do roteiro, uma história de vingança se projeta. Marco Silvestri (Vincente Lindon, ator de traços marcados, voz dura e seca) é capitão de um navio que transporta containers. A trabalho, um dia recebe uma ligação de urgência. O marido de Sandra (Julie Bataille), sua irmã, acabara de se suicidar. Ele precisa voltar à terra firme. Isso o leva a se reaproximar da irmã e a conhecer Raphaelle (Chiara Mastroani), que mora com um empresário obscuro, Edouard Laporte (Michel Subor). A trama do filme é uma teia de trapaças, amoralidade, artifícios e reações diante do horrível.

“Suspense dramático”, “thriller”, “drama”. Nenhuma das classificações habituais encaixa. Tampouco procede a ideia, alardeada pela crítica, de que se trata de um filme fora de certa “zona de conforto” executada pela cineasta em trabalhos anteriores. É claro que muda o mundo, as formas pela qual o poder se exerce, o pano de fundo da financeirização (sem precipitações, pois o filme “mais político” da cineasta continua sendo Chocolate), o problema da estrutura familiar. Enraizada numa herança híbrida e dialética, a obra de Denis tem essa força que parece de exceção, pois ela entende que a tal liberdade artística consiste em poder fazer o que não se espera que seja feito, não tem nada a ver com promover alguma justiça poética, mas com assumir, desde logo, uma posição, um olhar firme e compenetrado numa intenção de narrar.

Essa disposição de por as coisas a cru, na nudez escancarada que não é somente a do corpo, mas da brutalidade da ação, é em torno dessa pequena vista sobre os acontecimentos bruscos que Bastardos vai erigir suas imagens. O olhar sobre o corpo, mesmo destruído e violado (uma das primeiras imagens do filme mostra a personagem de Lola Créton andando, nua e sangrando, pelas ruas da cidade), não é diferente daquele que já vimos em Desejo e Obsessão (2001), em Bom Trabalho (1999) ou ainda em Noites Sem Dormir (1994). O corpo continua interessando, muda apenas a política da relação dele com a câmera.

Em Sexta-feira à Noite (2002), o mesmo Vincent Lindon aparecia pressionado pela câmera na hora do sexo, a pele exposta, as artérias vociferando junto do outro corpo. Aqui, Claire Denis filma novamente o dorso curvo do ator, dessa vez a ossatura desenhando-se por baixo da roupa, mas não durante o ato sexual e sim no momento em que ele se inclina para consertar a bicicleta da filha de Raphaelle, no pátio do prédio onde são vizinhos. Um gesto aparentemente banal. No entanto, a câmera acentua, nesse movimento, um desejo de irreconciliável importância estética e narrativa, pois Bastardos é mesmo um filme cuja força mora dentro das coisas, trafega escondida logo abaixo da superfície da pele, prestes a explodir e a anunciar sua raiva, sentimento (esse sim bastardo) que não se poderá mascarar. Inclusive o desejo de violar o outro, de vingar, de substituir seu Direito por uma vontade de afirmação de uma cólera, incorrigível, egoísta e de imponderável desumanidade. Paradoxo: é desumana justamente por sua humanidade.

Se dizem que um dos problemas de certa filosofia alemã é o excesso do “em si”, em Bastardos não há em si, só o outro, aquele outro explorado, talhado. Pois é na relação com o outro que pode existir o tipo de violência que urge na tela, nada existindo independentemente de sua própria essência. É um filme mais interessado em uma construção de múltiplas frentes, em estágios mais ou menos avançados de luta, numa exploração agarrada a uma cena típica do crime do filme de mistério. A diferença é que Claire Denis não se interessa por resolver o mistério com a redenção de personagem algum. Seu caminho, ao contrário, é a destruição e sua potência é compreender que a moral não se confunde com a capacidade de estabelecer as contradições do humano. Ao contrário do pensamento cientificista contemporâneo, a moralidade não é coisa que se resolva em laboratório, sobre a qual se pode dizer sim ou não.

Num momento em que o espectador parece ter medo de ver as coisas sob a pretensão de evitar o “didatismo”, o resultado das imagens de Bastardos é um susto rebelde e até bastante natural. É um sentimento compreensível. Trata-se de um filme desgraçado.

(Les Salauds, França, 2013) De Claire Denis. Com Vincent Lindon, Chiara Mastroianni, Julie Bataille, Michel Subor, Lola Créton, Alex Descas, Grégoire Colin, Florence Loiret Caille, Christophe Miossec, Hélène Fillières.

Publicado originalmente no Zinematógrafo #6.

 

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