28th Jul2013

O Fantasma

by Pedro Henrique Gomes

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Sergio (Ricardo Meneses) trabalha como gari noturno em Lisboa. Entre uma e outra noite de trabalho, se aventura pelas ruas da capital portuguesa na tentativa de saciar seus desejos sexuais. São vários seus encontros furtivos na penumbra, nos escombros. Um policial, um outro qualquer, um sonho, um homem que encontra na piscina, a relação de certo estranhamento que mantém com Fátima (Beatriz Torcato), pois ela o quer, mas ele logo a afasta. Sergio opera sempre nos extremos do desejo, deixa seu corpo dar vazão a uma criatura lancinante, insistente, movido pela coisa do impulso, instinto animal. Quer, chegando mais longe, aquilo que o repele (um homem heterossexual). De certa forma, ao fim e ao cabo ele consegue, embora não o tenha conquistado, mas sim vencido à força a resistência do corpo estranho que tanto procura para poder tocar e ter para si. É em torno de uma possessão que O Fantasma, primeiro longa-metragem de João Pedro Rodrigues, apresenta esse personagem peculiar.

Percorrendo errante as ruelas de Lisboa, Sergio é um personagem típico do olhar contemporâneo sobre a subjetividade dos desejos que circulam a biologia da espécie. Há um descontrole na pulsão, instinto animalesco contra o qual se pode resistir ou se deixar levar. Sergio faz parte de certa juventude irreconciliável com a razão (ou seja, explora os limites do cognoscível sabendo, de antemão, que vai além dele, em algum momento irá romper o cordão de segurança), destruidora das consequências, do “instante imediato”. É neste sentido que ele se aventura pela noite da cidade, escondido e disfarçado tal qual um fantasma, neutro em meio à multidão de ruídos e de pessoas estranhas. As ruas lhe parecem labirintos perigosos, mesmo diante da presença de apenas alguns populares.

Embora tenha notadamente plena consciência da força que emana de suas ideias relativas à fruição do corpo e do desejo, O Fantasma não permite a insurgência de uma complexidade do próprio personagem enquanto transpiração de angústias e cóleras do humano. Parece que todo o drama possível (e passível) é algo que precisa ser arrancado no músculo, sem qualquer mediação mais sutil da câmera (e seus movimentos) e das imagens que ela capta e constroi plano a plano. O que há, ao contrário, é a ficção de algo que escapa à urgência da narrativa em sua ânsia por uma explicitação de tensões psicológicas que não estão lá.

Os momentos mais interessantes do filme são justamente aqueles nos quais Sergio não está correndo atrás das coisas. Ora, a relação que mantém com Fátima é, no limite, bruta e singela – é ela, afinal, que vai até ele. Entre uma brincadeira e outra, João Pedro Rodrigues sugere o encontro sexual entre os dois, até que, como se nada mais interessasse, vemos apenas os dois na manhã seguinte, se vestindo, mal se olhando. Enquanto ela quer o sexo, ele a intimida ora com certa violência, ora com alguma esperança que aflora espontaneamente de seu olhar, como se fosse de fato beijar e consumar a transa. O enigma de Sergio, no entanto, que é um enigma a ele próprio (pois ele se conhece tanto quanto nós o conhecemos), vai continuar existindo em seu semblante.

O fantasma, após muito percorrer alguns caminhos espinhosos em sua busca incurável por uma pulsão sexual vibrante e violenta, passa a viver lá onde dormem as coisas que fazem parte do seu trabalho, no depósito de lixo. Se a impossibilidade de alimentar um desejo é ela mesma o impulso para tentar saciá-lo, a Sergio resta seguir buscando, não sem certo exagero, esse corpo que é seu objetivo. Em sintonia com o que sempre lhe garantiu força para resistir, ali talvez ele seja de fato dono de si mesmo.

(O Fantasma, Portugal, 2000) De João Pedro Rodrigues. Com Ricardo Meneses, Beatriz Torcato, Andre Barbosa, Eurico Vieira, Jorge Almeida, Salomão, Joaquim Oliveira, Florindo Lourenço, Rodrigo Garin, Luis Zorro, Maria Paola Porru, João Rui Guerra da Mata.

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