25th Feb2013

Holy Motors

by Pedro Henrique Gomes

O Holy Motors de Leos Carax abraça uma fatalidade. Primeiro, uma sala de cinema lotada, porém vazia: os espectadores dormem complacentemente em sincronia. A cinefilia está anestesiada, em luto coletivo diante de que mesmo? Depois, já vemos um pai se despedir da filha (ela está na janela, do lado de lá do vidro, portanto é parte de outro mundo, aquele do imaginário e símbolo: o cinema) enquanto vai de encontro a uma limusine para começar mais um dia de trabalho. Agora sim entramos no filme. Dentro do carro, que é seu camarim, Oscar (Denis Lavant) logo se veste e se maquia como uma senhora que pede uns trocados na Pont-Neuf, ali mesmo próximo do Samaritaine, prédio acerca de onde se passou o melhor filme de Carax (Os Amantes da Pont-Neuf). Depois Oscar vive um dublê, atuando “em” captura de performance. Por aí, entre outros personagens, Dennis Lavant é muitos e é um. Interpreta também homens de família, um assassino de aluguel, um músico, um sujeito que vive no submundo de Paris comendo flores (o mesmo de Merda, o segmento que Carax dirigiu para o filme coletivo Tokyo). As histórias que Oscar vai vivendo não se tocam diretamente, mas tateiam alguma densidade semelhante, o que talvez seu corpo explique. Trata-se, pois, de um filme dançante.

Dennis Lavant, nesse sentido puramente físico e metafórico, é também parte da História do cinema de Carax. Não somente por estar em todos os seus filmes, mas por ser e existir neles marcadamente através do gesto – palavra que, não por acaso, surge em Holy Motors em um momento crucial de exploração das camadas metafóricas e subjetivas do cinema, inclusive com a presença de Michel Piccoli, ator que também faz parte dessa história (e de outras). Os personagens vividos por Oscar/Lavant não precisam correr pelas ruas de Paris com aqueles longos travellings que permeiam os outros filmes de Carax como companhia. Ora, eles são quase todos deformações e anormalidades do corpo, do traço expressivo eminentemente forte que o ator tem escrito na carne. Lavant, desde sempre ator muito corporal (corpo que pede para ser filmado, rosto que emana uma expressividade violenta e assustadora), é a síntese desse cinema do corpo a corpo; a um só tempo, da eficiência e da barbárie da coisa física.

Essa força da imagem que nos assalta (nós também a assaltamos) é um sentimento fundacional do cinema de Leos Carax, pois é uma de suas raízes. Quero dizer, a experiência tem a consistência e a fruição apropriadas ao estabelecer uma espécie de raio-x corporal, elevando-o a uma condição de importância capital no filme. A força bruta, toda a relevância e o simbolismo do corpo funcionam como síntese dessa imagem bandida – e todo mundo sabe que no cinema nós amamos os bandidos. Além disso, mesmo os mortos estão todos conectados. Dormem, também, mas querem ver, enredar junto do mundo essa sua disfuncionalidade arquetípica e estagnante e transmutá-la em vida. Querem ar, querem ar! No fim, os espectadores não acordam, tampouco os mortos, mas continuam lá, vivendo a morte para além do gozo fácil e confortável do olhar apressado. O filme dentro de Holy Motors, que no fim é ele mesmo, não tem espectador.

Mas não precisamos tornar o filme hermético, já que ele é até bastante direto, isto é, não desvia o assunto para penetrar outros discursos. As várias narrativas estão conectadas, o caminho é só esse aí. Num comentário de ironia – mais ainda do que o fato das limusines falarem umas com as outras antes de dormir, reclamando do abandono e da imposição das novas máquinas no mercado -, é preciso, então, vestir a máscara ao deixar o trabalho, como faz a motorista-secretária (Edith Scob): a máscara que nos mantém regulados, parte do mundo, viventes do cosmo social, intérpretes do falso-real.

Vamos mais adiante. O levantar no meio da noite e, fazendo passagem numa floresta de plástico (escura, obscura, cheia de mistérios), abrir caminho e cair, meio disperso, numa sala de cinema lotada de pessoas dormindo. O despertar da consciência, o súbito desaparecimento do espectador das salas de cinema, mas não no sentido meramente físico, da presença (pois eles estão lá), e sim no que toca a perseverança do olho. A janela (ilusória, nos lembra Jacques Aumont) é, aqui, a parede, a abertura de algo que se quer ver. Mas lá está um filme que ninguém vê – nós não vemos as imagens, tampouco os espectadores adormecidos veem. O que está aí é o exercício do direito de ver: saber ver, ver bem, treinar o olho. Agora já podemos afirmar com um pouco mais de segurança: Holy Motors é um filme em torno do espectador. Precisamos recuperar nossa posição de assaltantes.

(Holy Motors, França, 2012) De Leos Carax. Com Denis Lavant, Edith Scob, Eva Mendes, Kylie Minogue, Elise Lhomeau, Jeanne Disson, Michel Piccoli, Leos Carax, Nastya Golubeva Carax, Reda Oumouzoune, ZlataGeoffrey Carey, Annabelle Dexter-Jones.

Publicado originalmente no Zinematógrafo.

4 Responses to “Holy Motors”

  • “Holy Motors” é um filme que tem sido muito elogiado, além de ter entrado em algumas listas de Melhores do Ano. Parece ser uma obra excelente! Quero muito conferir.

  • Muito boa essa observação dos espectadores dormindo no cinema, uma vez que o filme pontua, na figura de Oscar, justamente esse “cansaço” em continuar representando. Mas como ele se justifica, ainda há validade pela beleza do gesto. Sempre haverá alguém para ver, de uma forma ou de outra, as histórias que o cinema ainda é capaz de contar.

    • Sim, a questão, eu penso, é que a cinefilia está paralisada e que os únicos que conseguem “ver” são os bebês e os cachorros. “Mas eles também não veem”. A beleza do gesto é coisa dos cineastas, mas o público vê isso? sabe o que vê?

      Sem contar que a noção de “beleza do gesto” também precisa pensar a si mesma novamente.

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