22nd Feb2013

O que Eu Mais Desejo

by Pedro Henrique Gomes

Há sempre um vazio nos filmes de Hirokazu Koreeda. O cineasta prefere assim, quer dizer, é plenamente intencional essa ausência de algo. E é fundamental que as coisas sejam colocadas dessa forma explícita e abertamente utópica (para não dizer ingênua), pois ele opera na busca desse algo, ou na sua preservação: a memória é seu conteúdo. Sempre foi assim, como em Depois da Vida (1998), quando os mortos têm uma semana para escolher apenas um fragmento de memória para guardar para todo o sempre, ou em Without Memory (1996), documentário sobre um homem que não consegue guardar novas memórias, por exemplo. Seus filmes tateiam algo perdido ou que não se pode perder, pois o cinema também tem essa dupla função escorregadia de salvar as imagens para o olhar eterno. Nesse sentido, O que eu mais desejo não deixa de retrabalhar a questão.

É também verdade que ele manifesta aquela mesma falta de conflitos de filmes anteriores. Há impossibilidade dramática em superar sua própria condição material de trama e suspense (tensão e perigo), ficando sempre apegado a “construção dos personagens”. Ora, um filme como esse, isto é, justamente sobre esperanças (mais do que sobre a infância), é notadamente um exercício de manipulação das expressividades do corpo e do espírito. É sobre estar em paz com a própria condição existencial que trata o novo filme de Koreeda. Pois os dois irmãos que, vivendo separados por uma ilha, enquanto Koichi mora com a mãe e Ryunosuke com o pai (os pais se separaram recentemente), sonham em reatar os laços entre eles. Koichi, o mais velho, acredita em uma velha história sobre trens que, ao se cruzarem, oferecem a possibilidade de um pedido milagroso. Basta que, no instante do cruzamento entre eles num determinado ponto, os presentes gritem por seus desejos. O pedido do primogênito é bastante claro, e é ele que vai nortear os acontecimentos do filme: quer que o vulcão adormecido perto de sua casa entre em atividade, obrigando-os a abandonar o lado sul da ilha para, assim, serem obrigados a voltar a morar com o irmão e com o pai, reunindo a família. Então ele organiza, juntos de alguns amigos, a viagem até o ponto de cruzamento dos trens.

Koichi e seu irmão querem outra versão para o fim do mundo. Uma nova escatologia, desapegada da mentalidade dos adultos (que, como vemos no filme, podem ser estúpidos), diferente da obviedade das relações construídas a passos apressados. Koreeda está intimamente conectado com essa busca, perplexo diante da fragilidade do humano, e precisa extravasar essa putrefação com o olhar puro da infância, a docilidade da inocência. Isso talvez ilumine um pouco sua maneira de filmar: ela é também inocente, mas ao contrário da experimentação infantil, está sempre satisfeita com a estrutura básica dos planos e dos contraplanos, nada de impor dificuldades aos espectador, desafiar o olhar e a percepção conceitual da narrativa, que fica operando entre dizer e mostrar a força das coisas mesmo onde não há substância alguma, como em todo esse afastamento dos irmãos que mais parece uma trivial separação que um rompimento duro e cruel – mesmo que, lá no final, ocorra um amadurecimento súbito (também deslocado), o que não faz muito sentido, pois o filme inteiro fora construído sob a beleza da inocência (e, em certa medida, ia bem assim).

Voltando ao tema de Koreeda, a memória, que é o que ele tem de melhor a nos oferecer, O que eu mais desejo é um filme sobre a escritura de uma vontade de voltar (eterno regresso, eterna permanência): devolver o sensorial ao mundo animado, ao tecido do real, humano. O real se fortalece precisamente em sua transformação em ficção, a fé, a esperança, nada mais são do que vontades de potência, de criação de um “futuro memorável”, inquestionavelmente ali, no seu lugar, do jeito que queremos. Com o tempo e na iminência do cruzamento dos trens, no entanto, Koichi e Ryunosuke não precisam mais mudar as coisas, não querem mais. Já lhes basta a memória e a possibilidade de construção de coisas novas para preenchê-la.

(Kiseki, Japão, 2011) De Hirokazu Koreeda. Com Koki Maeda, Ohshirô Maeda, Ryôga Hayashi, Cara Uchida, Kanna Hashimoto, Rento Isobe, Hoshinosuke Yoshinaga.

Publicado originalmente no Papo de Cinema.

One Response to “O que Eu Mais Desejo”

  • Nunca assisti a um filme desse diretor japonês, mas teu texto me deixou curiosíssima em relação a esse filme.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>