31st Oct2012

Hotel Mekong

by Pedro Henrique Gomes

O Mekong é um extenso rio que atravessa a Tailândia e o Laos, fazendo com que os países dividam suas águas. Em um hotel situado nas margens desse rio, no lado tailandês, um grupo de pessoas passa alguns dias convivendo com histórias e com espíritos. Carne e espírito se misturam na confusão das imagens e dos significados, das ações e das reações, enquanto a música compõe o “clima” (poucos filmes são tão ambientados como os de Apichatpong Weerasethakul) que, antes de sensibilizar as plateias, busca paralisá-las. Não há mais espaço para remontagens narrativas, os personagens são aquilo mesmo que aparentam ser, só que um pouco mais. Para o diretor, mostrar parece mesmo ser uma forma de desmitificar as criaturas, de contar uma história (do passado) para lhe roubar a fantasia, a criação, a verdade e a mentira. O espírito, esse invasor, é algo como um mensageiro fabuloso que persiste em sua forma de resistência – espíritos também sentem fome; e comem. O impulso mais terrível da espécie, isto é, comer a carne do outro, é o grande espetáculo a ser filmado juntamente à própria relação sentimental que estabelece com os personagens. Os temas, carne, espírito e natureza representam esse contato de Apichatpong com o que lhe é mais caro: o passado (memória). Hotel Mekong, trata, no entanto, de uma estética contemporânea.

Em contato com a natureza, o espírito deseja desprender-se dela, corroendo seus entes. Mas os espíritos, aqui, são amigos. Os personagens não são mais que suas roupagens, e assim servem de corpo para que o invasor se refestele sob suas feições e sobre sua pele – e sob as águas do Mekong. Todos comem todos, embora ninguém morra: o corpo é um rito de passagem, desapegado de si mesmo, todo formoso e todo estético, mas que tem um passado, e isso Apichatpong explana através dos diálogos que envolvem as imagens: são histórias antigas, sobre como viviam, o que faziam, sobre quem eram. A representação é, todavia, a mais simples possível, isto é, a câmera não realiza movimentos, embora a ação interna de cada plano exija sempre a atenção do olhar; os personagens não saem de quadro, apenas o invadem; a câmera capta muito o conjuntos das expressões e dos gestos, as falas são cadenciadas. Se Hotel Mekong possui um traço indivisível que é a não espetacularização da imagem, e que tanto é sua força como sua beleza, também torna seus procedimentos simbólicos peças de um jogo arriscado de significações.

Pois se a relação espiritual é em si fantasia, e se está no cinema, é fantasia, então a inscrição desses no plano dramático não é mais que sua destruição. Ora, filmar fantasmas de maneira que eles não sejam mais espertos nem mais imbecis que os humanos é algo como criar livremente a ligação do corpo com o espírito a custo de preconizá-lo – mas não somente no sentido religioso. O ambiente do hotel, das sacadas e das áreas internas, favorece os efeitos que o filme busca criar, e onde cenas de lamúrias misturam-se com outras de aflição e medo. Mas Apichatpong não demonstra nenhum apego desmedido a sua forma, ao contrário, localiza nela o fluxo que captura todos os instantes da ação ao não se permitir cortá-la – e abraça a temporalidade da ação com a música que toca intensamente ao longo do filme. A música que, como o rio, atravessa o espaço do registro. Se por um lado o filme não tem a mesma pungência dos anteriores – Tio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (2010) e Mal dos Trópicos (2004) em especial – não raro mantém a escrita do cinema deste realizador: sugar as energias da vida e expô-las com a menor perda possível de sua própria magia.

Um filme em que o espírito não apresenta mais que sua resistência. Resistir é, para o fantasma, comer a carne humana. Um caso de vida na morte. Dessa ligação do natural com o sobrenatural, e antes com natureza, ele quer existir, mesmo sabendo que não é humano. Aparece ali quando não é esperado (pois Hotel Mekong é um filme de mistério) e vai embora quando é descoberto. Está e não está na vida a um só tempo, assim como o cinema. Nessa tetralogia das relações (corpo, espírito, natureza e cinema) aqui exposta, se desdobram momentos de pura força (como a cena em que mãe e filha comentam suas vidas na cama do quarto, entre lágrimas e sorrisos) com alguns puramente elucidativos de captura das trivialidades, Apichatpong conduz a transformação do cinema a seu ritmo, aquele das catalisações (fluxo), das vulnerabilidades e das emoções. A câmera existe para salvar a imagem. Não é tanto sua forma, mas sim sua simples procura.

(Mekong Hotel, Tailândia, 2012) De Apichatpong Weerasethakul. Com Jenjira Pongpas, Maiyatan Techaparn, Sakda Kaewbuadee, Chai Bhatana, Apichatpong Weerasethakul, Chatchai Suban.

One Response to “Hotel Mekong”

  • Gosto muito dos seus textos, pois eles sempre conseguem extrair algo de interessante de cada filme que você assiste.

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