28th Jul2012

Habemus Papam

by Pedro Henrique Gomes

Ninguém quer ser o novo Papa, mas alguém tem de o ser. Tal é a irreverência dessa frase (que não está no filme através de palavras, mas em imagens), mas também sua sinceridade e crueza antipoética, que o novo filme de Nanni Moretti estabelece de pronto seu discurso. A perspectiva de uma trajetória que durará até o fim da vida (imbuída de toda uma castidade regrada e a separação da vida mesma; as ruas, as coisas, as pessoas e as transpirações) assusta todos os concorrentes ao posto mais alto do catolicismo. A primeira cena corresponde a essa vontade de desdobrar as estruturas de um mundo e de interpretá-lo por dentro (na medida possível, e sem querer propor juízos rasos de suas funcionalidades) Habemus Papam é assim todo satírico (bem como provocador), querendo antes dar entendimento das coisas do que das pessoas (o personagem a ser descoberto é Melville, vivido por Michel Piccoli). A Igreja é o espaço onde não cabe a psicanálise, daí a resistência dos cardeais às intervenções do psicanalista interpretado pelo próprio Moretti, que tenta questionar as fantasias e os desejos reprimidos do novo papa.

A história não é difícil. Com a morte do Papa, outro precisa assumir seu lugar. Fechados para o Conclave, todos os candidatos realizam as tradições que levam até o momento da votação.  Durante a leitura dos votos, Moretti filma a aflição: travellings curtos vão atravessando a sala e mostrando rostos tensos e orações preocupadas de vários cardeais concorrentes, e nenhum deles quer ser o escolhido. Melville, que acaba sendo o mais votado, surpreende a todos ao hesitar e decide não discursar diante dos milhares de fiéis que se aglomeravam na Praça de São Pedro, no Vaticano. Desiste (desobedecendo o Espírito Santo), pede um tempo para refletir se sustentará a responsabilidade – pensa em Deus, pensa na sua missão, pensa em porque não consegue fazer o discurso e assumir o papado. Após consultas com médicos e psicanalistas que fracassam, Melville consegue fugir do Vaticano e passa a se “esconder” nas ruas de Roma. Entre uma esquina e um café, descobre a vida. Podemos imaginar que o futuro daquele homem não é viver como um Papa (quiçá ser um), mas não por não ser capaz, como ele mesmo alega, mas justamente por negar a pregação conscientemente, rebelar-se, questionar-se – e Moretti narra isso sem a inocência de um conhece-te a ti mesmo jogado ao vento para constituir banalidades mundanas, mas olhar claramente político (e politizado). A vida é um pouco mais, parece pensar – e vai descobrindo.

Habemus Papam é tão envolvido em sua história que não existem espaços para críticas vazias focadas na questão da moral (ora, este é, por sinal, um de seus temas). Nanni Moretti não só desnuda um personagem (na psique mesmo, no sangramento de sua existência), mas o compõe com a poesia armada do seu olhar. Pois se há a crítica a Igreja como sistema/instituição de valores éticos e morais, há também uma sensibilidade no modo de olhar o que tais valores representam para toda uma sociedade que não é mero idealismo. Ora, não é tanto o que é a Igreja a questão que o filme nos apresenta, mas justamente a oposição desta metafísica: Moretti quer pensar sobretudo as sensações do indivíduo e do coletivo e as relações que compõem o tecido mesmo das atitudes e pensamentos. As crenças têm lá suas investigações (não em nível epistemológico, mas efetivamente político) para além da sátira e do tom jocoso das piadas: Habemus Papam é um grito muito consciente – aliás, a sátira parece ser algo que os grandes cineastas articulam bem. Escancara por um lado, flerta noutro. Um torneio de vôlei entre cardeais, com as equipes divididas entre continentes (tente pensar em algo mais político), jogando bolas de um lado a outro, meio assim, meio sem jeito, meio embaraçados, brinca com o jogo de poderes. O entrelaçamento entre os poderes, entre as culturas, não é uma questão de ruborizar as relações humanas, mas sim de tragá-las a um espaço crítico situacional e colocá-las diretamente em exposição, sangrá-las.

Não é por acaso que Moretti gosta de filmar as coisas acontecendo desde o início, pois as aspirações mentais feitas por Melville e por todos os outros personagens do filme (incluídos estão os fiéis e os repórteres) amplificam-se com a mise en scène vertida em sentido puro e também poético, aquele da encenação, do corpo, da palavra, do movimento, do objeto, do olhar, da respiração, da agonia. Assim, a crítica mais pulsante ao sistema católico, reside na dialética entre os modos de vida, através das experiências. Ao mesmo tempo, consegue convidar uma plateia de maioria católica, a rir de si mesmo – a saber, estamos falando de um filme italiano. E a piada está nos outros, não no Papa. Se Melville não conseguiu ser ator e representar personagens que não é, tampouco suportaria o peso de viver como um personagem-símbolo para milhões de outros. Por isso ele desiste e resiste, pois se há uma coisa para além da negação é a própria afirmação de convicções outras.

Há toda uma narrativa de significação permeando a história, mas nada passa pela frente da câmera sem uma função: a fumaça não é só alegoria do Conclave, mas também o claro e o escuro da psique do personagem de Michel Piccoli; e já que estamos falando de um filme que discute as incompatibilidades entre as concepções religiosas de alma e espírito com a noção psicanalítica de inconsciente, não há problema em investir em tal análise que aponta para os problemas da mente de maneira não dualista (dualismo: a concepção de corpo e mente como entidades separadas). Essencialmente, a politização das histórias (é uma e são muitos seus desdobramentos) parte da comunidade e da experimentação de sabores e desejos, que estão aqui e ali esperando para serem transados. Melville pega o trem, o ônibus, vai à cafeteria, ao Teatro (quando criança, sonhava ser ator; a ironia do filme é justamente promover um encontro entre a verdade e a representação numa cena especialmente potente durante um espetáculo). Todavia, não há espaço para romantismo cínico, pois a ideia de pertencimento é rasgada pela força de imagens cada vez mais completadas em sentido: o lugar é o movimento. Viver é sacolejar. A julgar pelo momento decisivo da subida ao local do discurso e pelas palavras que lhe rompem as veias, Melville venceu.

(Habemus Papam, Itália, 2011) De Nanni Moretti. Com Michel Piccoli, Nanni Moretti, Jerzy Stuhr, Franco Graziosi, Camillo Milli, Ulrich von Dobschütz, Margherita Buy, Riccardo Sinibaldi.

3 Responses to “Habemus Papam”

  • Sou doida para assistir a este filme, mas ainda não consegui. Gosto da forma como o Nanni Moretti estrutura suas histórias e as apresenta ao público.

  • Eu gostei bastante desse filme quando o vi. Confesso que esperava menos dele, mas acabei bastante surpreso.

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