28th Mar2012

O Homem que Mudou o Jogo

by Pedro Henrique Gomes

Filme não poético

Apesar da aparência e do discurso crítico dominante atestar que sim, filme de esporte é tudo que Moneyball não é – ou pelo menos não o é de todo; quem diz isso não está dizendo exatamente aquilo que pensa dizer. O esporte aparece, ao contrário, como substrato do drama (só existe porque existem pessoas), pano de fundo – e se precisamos sempre valorar um filme como sendo “sobre alguma coisa”, então O Homem que Mudou o Jogo é principalmente sobre pessoas. As rugas que se inscrevem na carne de Billy Beane (Brad Pitt é quem interpreta o protagonista da história) provenientes do esforço hercúleo que ele despende para gerenciar o Oakland Athletics (um desejo que está muito ligado ao seu passado como jogador) são antes o tema do filme do que as bolas e os bastões em si mesmos.

O esporte, o baseball, é por acaso sua história, seu mote dramático, mas a adrenalina que explode tela afora não é do jogo, da expectativa pela vitória ou pela derrota, mas sim se instala na iminência de uma condição psicológica e sentimental causada pela aproximação daquele personagem com um mundo em particular – um mundo tátil, mundo de pessoas, de lágrimas e sorrisos, mundo portanto cheio de vida(s) em toda sua complexificada estrutura sistêmica (o jogo, agora sim, assume um papel de importância sobressalente). Primeiro percebemos, já no início, que o dilema de Beane não é o jogo pelo jogo, a vitória pela vitória. O seu sangue ele já doou no passado. Agora é o atual gerente do Oakland, time da liga estadunidense de baseball com poucos recursos financeiros quando comparado com outros grandes clubes que disputam a mesma competição.

Bennett Miller é quem dirige o drama de Beane, que está em compreender as relações e, sobretudo, o sistema do jogo em questão. Regra número um: não existe igualdade na disputa (algo como o vestibular na universidade pública brasileira), no sentido de que os clubes não partem do mesmo chão. O choque localiza-se na esfera dos poderes constituintes, ou seja, quando os leões de ontem devoram os cordeiros de hoje com suas dentaduras fragilizadas mantidas em conserva em nome da respeitabilidade. Causa e efeito: políticas deflagradas pela ação mortífera do tempo e do espaço passados infligem a dureza dos processos atuais que se estabelecem e se perpetuam. Assim, Beane precisa combater essa estrutura, e para isso contrata um jovem economista (sic) recém formado para elaborar uma nova estratégia de acompanhamento e investigação estatística de potenciais jogadores. Após alguns percalços, incluindo brigas com o treinador da equipe, divergências atenuadas com as comissões técnica e administrativa do clube, a estratégia de Peter Brand (Jonah Hill, o economista) começa a dar certo. O time amplamente reformulado começa a vencer, bater recordes de vitórias a cada jogo ao superar os adversários antes temidos. O olhar arguto de Beane combinado à extrema precisão das escolhas de Brand (novamente são os números que determinam o êxito) faz deles heróis da torcida.

Heroísmo que, no caso de Beane, precisa ser retificado com a filha, a mulher de sua vida, que mora com a mãe e o padrasto. Em O Homem que Mudou o Jogo, logo substitua o romance clerical estritamente hollywoodiano por uma não-poética-sexual. E que não por isso o filme perde seu romantismo, precisamente pelo contrário, ele se clarifica como um respiro da dramatização estigmatizada no mainstream. A luz da lógica, o amor por uma mulher que emana em Beane está escrito em sua relação com a filha; etéreo. Embora essa relação não apareça essencialmente ao longo das imagens, ganha força através da presença do próprio Beane. E se por um lado esse registro se torna afável, na outra ponta arrefece em função do maniqueísmo. Os temas relativos ao esporte, superação, força de vontade, trabalho em equipe marcam presença, mas também não fazem parte do escopo dramático central. O mérito de Miller se faz sentir, pois ele filma os jogos com paciência, sem tremer a câmera subjetivando-a desnecessariamente. O jogo é filmado tal como ele é, o ritmo é ditado pelos corpos. A decupagem exemplifica uma concepção de cinema, ou mais precisamente de imagem, que não anula a objetividade do olho: sem aeróbica, com transparência – o que é difícil, haja vista que é mais fácil parecer um artista do que o ser de fato. O ritmo é comezinho, prontificado para expor a encenação do homem que não chora, do atleta escamoteado em outro clube e que recebe nova oportunidade, do veterano que volta e retoma seu lugar de destaque, do desconhecido que precisa mostrar suas capacidades adaptativas. São todos momentos de transição delicados e sustentáveis somente por eles mesmos. Problemas da espécie, dramas humanos. Onde o baseball é uma ponte.

Os bastidores do baseball não são dissecados, como se esperaria de um “filme de esporte” (fica assim entre aspas antes para demonstrar a insignificância do rótulo que para ironizar). Ao passo que isso não ocorre, os diálogos que não são entre Beane e Brand se perdem no caricaturesco da palavra – as pessoas falam muitas vezes sem dizer nada, o que quebra intensamente sua potência. E de fato estão devidamente marcadas as caricaturas, do esforço humano recompensado, de honra às tradições, do orgulho pelas batalhas vencidas, mas nunca transparece isso como função-fim – alguns dos filmes mais medíocres são esses, afinal. O dilema do capital se instaura por todo o espectro fílmico, afinal falamos de um filme que gira em torno de negócios – o que aparece já no título original. Também fica evidente o desejo de não banalizar a relação humana com o dinheiro, já que a negociata de Brand nunca fere a lógica de seu volume de complicações. São, portanto, dois os homens que mudaram o jogo (o título nacional não faz justiça a nada). Não há como dizer que não sejam todos estes sobretudo problemas do mundo.

(Moneyball, EUA, 2011) De Bennett Miller. Brad Pitt, Robin Wright, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman, Chris Pratt, Stephen Bishop, Brent Jennings, Ken Medlock, Tammy Blanchard, Jack McGee, Kerris Dorsey.

3 Responses to “O Homem que Mudou o Jogo”

  • Me lembro de que gostei bastante desse filme quando o vi. Apenas me incomodou a duração dele, já que acho que poderia ser mais curto. No entanto, a sobriedade do filme é muito positiva, principalmente porque tudo nele flui bastante sem os problemas dos filmes voltados para a ação, qualquer que seja. Brad Pitt e Jonah Hill são duas figuras muito interessantes em cena, mesmo.

  • Ainda não assisti a esse filme, mas a obra muito me interessa. Sempre me fascina muito o fato dos norte-americanos gostarem de utilizar os esportes favoritos da população como uma forma de ilustrar fatos da vida comum, que poderia acontecer com qualquer pessoa. Adorei o texto, como sempre.

  • Trama envolvente, personagens no auge da real vida humana. O Homem Que Mudou o Jogo é denúncia e aula ao mesmo tempo. Mostra uma das natas realidades que está na cara, mas ninguém vê. Porém, tem o dom de orientar que sentença verdadeira não excluir o esporte e a emoção de sua vida, e, sim, encontrar a maneira sensata de fazer algo onde será possível até vitórias extraordinárias, como fazer gregos e troianos se agradarem com o mesmo fato.

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