27th Feb2012

A Invenção de Hugo Cabret

by Pedro Henrique Gomes

Intrinsecamente, todo filme é uma homenagem ao cinema. Ao mesmo tempo, poucos tomam isso como tema, conectando a isso uma história paralela. A Invenção de Hugo Cabret é antes a história de algumas paixões, que por acaso dedicam-se ao imaginário cinematográfico. O novo filme de Martin Scorsese criou para si essa dificuldade de representação no instante mesmo da concepção da ideia de filmar. Em parte, pois, “homenagear o cinema” é muitas vezes uma tarefa de reencenação, de reinterpretação dos signos e das coisas que os significam (os próprios filmes e o próprio meio), o que representa uma força motriz perigosa pelo peso que é mexer com o tal imaginário coletivo (embora Hugo Cabret verse antes sobre a História do cinema). Se o subúrbio nova-iorquino já foi tema incansável em seus filmes anteriores (tão autobiográfico quanto esse filme último), aqui o clima de brinquedo da Paris dos anos 1930 toma conta da estrutura. Sai de cena o sexo, as drogas, a violência, o submundo dos jogos e o sangue rasgando a tela de filmes como Caminhos Perigosos, Táxi Driver e Os Bons Companheiros para ceder espaço a alegoria de uma drama infantil pinçado através da perspectiva adolescente de aventura e desejo.

Acompanhamos a história de Hugo (Asa Butterfield), menino órfão que vive clandestinamente entre as paredes de uma estação de trem em Paris, consertando e dando pulsão aos relógios do local. Para sobreviver, realiza alguns furtos. Hugo perdeu o pai (Jude Law), um relojoeiro, tragicamente, num incêndio. Com ele aprendeu a consertar coisas. Uma dessas coisas foi um autômato que seu pai encontrou certa vez abandonado num museu, e o qual herdou. Sem saber, Hugo fez alguns roubos na loja de quinquilharias de um velho mágico para poder reconstruir o autômato, que, para funcionar, necessitava de alguns reparos. O solitário era Georges Meliès (Ben Kingsley), o que Hugo viria saber um pouco depois. Ao reconhecer o talento do jovem intrépido, Meliès o convida para trabalhar em sua loja consertando coisas defeituosas como forma de pagamento a tudo que ele lhe havia furtado sorrateiramente. Lá ele conhece Isabelle (Chloë Grace Moretz), neta de Meliès, com quem desenvolve uma amizade importante para se reconhecer naquele ambiente.

Se a aventura dos jovens é clandestina, assim também o é a narrativa. Não existe um conflito puramente dramático que se sobreponha as funções tácitas do roteiro, e é também verdade que o filme deixa-se impregnar pela profusão natural de alguns clichês, mas não há uma crise latente entre os personagens, que é o maior de todos os clichês – e se há alguma, ela é antes drama de cada personagem que um conflito narrativo dedicado a dramatizá-los como um corpo só. O próprio policial interpretado por Sacha Baron Cohen passa o filme inteiro em busca do sorriso perfeito, que é uma maneira de encenar, ao mesmo tempo em que convive com as agruras do passado talhadas no próprio corpo; Hugo quer terminar o trabalho de seu pai dando movimento às máquinas, mexendo com os brinquedos que contam o tempo; Isabelle quer viver uma aventura; Meliès precisa reaprender a ver o mundo, olhar para o passado; o livreiro Monsieur Labisse quer olhar para o futuro ao passar adiante seus livros; o crítico e pesquisador Rene Tabard quer conjugar essa paixão mágica do passado com a instância acalentadora da memória que se dá no presente. No início, os conflitos de cada um se estabelecem compactuando a priori apenas as diferenças, sendo aos poucos construída a teia de relações que coloca todos como parte da matéria causal da trama. A Invenção de Hugo Cabret é um filme adulto.

Scorsese revive a ancestralidade do cinema e da feitura dos filmes de Meliès perseverando com uma representação que não cede espaço a excessos senão aqueles inerentes a sua própria beleza – não há uma apreensão desmesurada por cena alguma, todas respeitam uma unidade temporal coerente com o próprio ritmo do filme, que de fato conjuga a aventura infantil com o olhar do mais velho. Voltar o olhar não é o mesmo que tentar revivê-lo matrimonial e copiosamente, como é o caso de O Artista, mas antes reencontrar nesse retorno nostálgico a potência para seguir adiante com um cinema contemporâneo, modelando novos espaços e vislumbrando outras maneiras de mostrar as coisas. A Invenção de Hugo Cabret inflige positivamente no cinema de agora contiguidades que ainda estaremos a ver florescer no futuro. Se a roupagem moderna do passado que é impregnada ao filme funciona como um alívio no teor dramático, não raro a fotografia se deixa transformar pegando pesado na ambiência: entre um passeio noturno e um dia ensolarado e vívido oscila as preambulações dos jovens aventureiros. Um filme maduro de um cineasta amadurecido, e por isso um filme que não é simplesmente apaixonado por seu romantismo, mas sim, em essência, verdadeiramente romântico.

(Hugo, EUA, 2011) De Martin Scorsese. Com Asa Butterfield, Ben Kingsley, Jude Law, Sacha Baron Cohen, Chloë Grace Moretz, Emily Mortimer, Christopher Lee, Ray Winstone, Michael Stuhlbarg.

6 Responses to “A Invenção de Hugo Cabret”

  • Vomitei arcoiro no texto champs.
    É interessante uma parte principal do seu texto que é a questão da homenagem e da copiosidade que acontece em O Artista. Uma cena no qual você entende realmente o que é cinema é a cena do pequeno Rene encontrando com George … são cenas como essa, uma sensibilidade impar que faz que o cinema seja único.

    Gostei do texto e do filme champs, pena que não ganhou … mas ganhou o fundamental, o nosso respeito.

  • Pedro, todas as qualidades que você aponta em “Hugo” para mim estão concentradas apenas no último ato, o momento em que finalmente conhecemos melhor a figura de Georges Meliès. Admito que antes deste aguardado instante, foi quase um sufoco acompanhar “Hugo”. Isso porque não dá para comprar muito bem a dramática história do personagem título, especialmente pelo ritmo muito inadequado para um filme que é, acima de tudo, feito para toda a família. E embora tenha visto aqui um convicente mapeamento das motivações de cada um dos personagens secundários, acho-os tolos e descartáveis. Antes fosse apenas a história de Meliès. Aí sim Scorsese teria feito uma homenagem ao cinema à altura de seu principal rival nesta mais recente temporada cinematográfica.

  • Tecnicamente, “A Invenção de Hugo Cabret” é um filme perfeito. Claramente, é uma homenagem de Martin Scorsese, um apaixonado pelo cinema, à sétima arte. Entretanto, acho que este longa tem alguns problemas de roteiro, especialmente na mudança brusca de foco da invenção de Hugo para a descoberta que ele faz sobre o Papa Georges. Me parece dois filmes dentro de um só. Esse ponto de transição nunca ficou bem claro pra mim, mas é claro que se trata de uma obra deveras emocionante e que mereceu os cinco Oscars conquistados ontem, exceto o de Efeitos Visuais.

  • Depois de um tempo, o filme perdeu um pouco de sua força desde que eu vi no cinema. Mas ainda assim é uma beleza toda a construção da trajetória do garoto, em torno de todos aqueles personagens. Quando o Méliès entra em cena, o foco da história muda (cresce, eu diria) para outro rumo, o da homenagem escancarada. Talvez o filme se alongue mais do que necessário, mas é lindo demais. O 3D é impecável, como poucas vezes se viu seu uso tão funcional em um filme.

  • Scorsese é gênio. Cineasta amadurecido desde que me conheço por gente. É mais fácil ele estar certo do que eu ou você. E tenho dito.

    Abraço!

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