19th Jul2013

Não há nada mais reacionário que a negação do corpo

by Pedro Henrique Gomes

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O mito é o ideograma primário que nos serve, temos necessidade dele para conhecermo-nos e conhecer. A mitologia, qualquer mitologia, é ideogramática e as formas fundamentais de expressão cultural e artística a elas se referem continuamente.

(Revolução do Cinema Novo, Glauber Rocha)

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A experiência da ocupação da Câmara Municipal de Porto Alegre valeu mais que uma faculdade. A convivência com as várias demandas sociais a partir de muitas pessoas diferentes, de vertentes políticas distintas (mas dentre aquelas que ficam do lado do coração), de partidos vários, de partido nenhum, da religião que se queira, foi emancipadora. A lógica foi subvertida, como já é de amplo saber: coletividade, autonomia, autogestão, horizontalidade, dinâmica sistemática das assembleias democráticas.

Os banheiros eram para todos os sexos, multisexos-plurisexuais, e indiscutivelmente funcionavam com organização e utilização compartilhada com respeito às intimidades. Ali, durante a última semana, se respeitou o corpo do outro. Homens e mulheres entravam e saiam do mesmo box, sem constrangimento, sem coação. Não houve necessidade de imperativos. Mas o que repercutiu na manhã desta quinta-feira 18, mais que isso ou qualquer outra coisa, foi o corpo humano. Ele mesmo, vangloriado, vestido por todos nós, inerente e imanente a todos nós, intrínseco a nossa existência e substância, indissociável de nosso desejo, ele chocou algumas pessoas.

O nu não é uma demonstração de poder, é o poder ele mesmo, toda a força e a inocência do humano. Reclamaram que faltava paz e amor ao movimento, mas quando foram expostos os mais poderosos símbolos desse amor e dessa paz, não compreenderam. Primeiro: estes bravos conservadores não conhecem seus valores. Enxergam no corpo do outro um absurdo que deve ser mantido para si, escondido do mundo, revelado somente para o sexo, para o prazer egoísta. É justamente isso: estas pessoas que se ofendem com a nudez são porcamente violentadas, elas mesmas, pela cultura pornográfica que consomem, associando diretamente o corpo ao sexo. Não percebem a beleza que jaz ali dentro e ali fora, por mais gritante que seja.

O nu dos jovens incomodou os setores moralizantes da cidade, do estado e do país. Disseram que o movimento perdeu a razão, descaracterizou-se, perdeu o foco, vulgarizou o que antes era tão bonito e “pacífico”. Ficaram horrorizados com tamanha imprudência e despudor, logo tachando o ato com suas bravatas conhecidas: “putaria”, “pornografia”, “bando de vagabundos e vagabundas”, “não respeitam a família e as instituições”. Entretanto, não há choque algum por parte dos conservadores da pureza, da aura, quando, amealhadas, acuadas e oprimidas pelo violento sistema de transporte as mulheres sofrem abusos forçados nos corriqueiros esfregamentos dos ônibus. Não lhes incomoda quando podem gozar. Assustam-se com o sexo exposto das mulheres, mas passam coladinhos, e, entre seus amigos machistas, se vangloriam nos churrascos de domingo. Não deveria surpreender a exposição do corpo: ele é tudo que temos. A nudez nada mais é que a pulsão de um sentimento de amor. Não há nada mais reacionário que a negação do corpo nu.

Update: alterei a foto da postagem em 22/07/2013, pois não endosso a atitude do rapaz que aparece segurando o quadro da Manuela, pois isso nada tem a ver com um possível conteúdo político do nu em questão. O nu não deveria chocar, tampouco ser considerado revolucionário. O corpo simplesmente é. Não concordei e não concordo, aliás, com várias atitudes e situações que presenciei durante os dias em que estive na Câmara, e essa autocrítica o próprio Bloco de Luta vem fazendo. Este (o rapaz com o quadro), como outros, foi um impulso bem inconsequente, no mínimo, como está sendo justamente alegado por alguns leitores e amigos. Em meu blog, alterei a imagem, substituindo por outra, sem o quadro da ex-vereadora. Não pretendo, com isso, esconder nada (essas coisas precisam e devem ser explicitadas), mas evitar a “afirmação” do que me pareceu um equívoco e uma imprudência, mas que o texto não deu conta de explicar. O texto, todavia, não se prestou a julgar a ação, a nudez em si de todos os presentes, mas o susto que ainda há com a exposição do corpo. Ele é só sobre isso. As críticas ao que aparece na imagem já existem e são necessárias.

16th Jul2013

A lógica dos discursos

by Pedro Henrique Gomes

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Chuva, chuva, chuva.

(A Lua Vem da Ásia, Campos de Carvalho)

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A repercussão do movimento que ocupa a Câmara Municipal de Porto Alegre desde 10 julho, a partir de articulação do Bloco de Luta Pelo Transporte Público, é registrada sob um mar de ações políticas por parte dos grandes veículos de comunicação da cidade. A mídia age e sempre agiu politicamente, daí lamentar que os movimentos sociais tenham motivações políticas é, no mínimo de nossa boa vontade, ingenuidade e hipocrisia.

Não fossem os coletivos autônomos e independentes, como o Catarse e a Mídia Ninja, por exemplo (além das reportagens e imagens esclarecedoras do Sul21), o corpo da ocupação seria sempre o mesmo: frágil a partir da deturpação dos acontecimentos e da organização popular. Em relação à pauta do Bloco, a imprensa maior opera de duas formas, pela omissão e pela despolitização (chama de utópica, essa palavrinha que a direita mais utiliza para dizer que são impossíveis as lutas sociais das quais discorda). De um lado, o silêncio criminoso da mídia monopolizadora. Do outro, quando o assunto surge nos rodapés das páginas de internet ou nas notas que circulam nos jornais, se apressa em fazer o retrato de um vandalismo terrorista marginal (os termos mais adorados do momento), sem foco, violento. É violento, mas o é porque violenta a coisa política lá onde ela se enraíza, isto é, nos preconceitos, na “obrigatoriedade do aperto” nos corredores de ônibus, nas práticas de redução/remoção do pobre, no aniquilamento das diferenças, na exclusão de classe e, ali perigosamente, na negação da desigualdade do cotidiano. É mister: violência de ideias é essencial à democracia.

Mas a ocupação em si, como já atestou a Justiça, é pacífica. Qualquer alegação em sentido contrário a isso é falsa. Os sujeitos dançantes popularizam suas pautas, investigam coletivamente, projetam, criam, pintam. Os raciocínios nunca lhes foram tão contagiantes, as ideias borbulham e vão crescendo ou ficando pelo caminho conforme percorrem os espaços ocupados. Por isso parece estranha aos vereadores, pois vão e vem de forma autônoma, sem decretos “de cima”. Tudo corre para todos e por todos os lados. Na verdade, talvez, para os vereadores, seja interessante inclusive repensar a ideia de ocupação. A Câmara está ocupada, mas todos podem entrar, está plenamente aberta, principalmente para que seus funcionários (entre os quais, evidentemente, os vereadores) possam trabalhar – inclusive existem alguns que estão trabalhando normalmente. Só não vai quem não quer. Não há impedimento nenhum da parte dos manifestantes.

Lá estão famílias com suas crianças, seus brinquedos, seus carnavais. A bem dizer, nunca houve lugar tão propício para a educação e para o cultivo de respeito entre os sujeitos. Não é somente democrático, é muito melhor.

Passe livre

O discurso hegemônico diz, logo de partida, que não é viável o passe livre. Mas não é somente este o argumento. A elite (e a classe média brasileira) não quer o passe livre porque ele colocaria aquele monte de gente do morro nos ônibus. Credo! Não gosta de pensar no preto e no pobre dividindo aquele banco apertado do T7. Muitos deles. Inconsoláveis, pensam que um dia por mês já está de bom tamanho. Ora, a alegria dos pobres sempre incomodou a consciência burguesa. Ela sempre frequentou apenas os lugares de poucos, os espaços compartilhados são “chinelagem”, “maloqueragem”. Quando chegam num ambiente de diferentes, ou seja, de todos, logo dizem que “esta é a primeira e a última vez”. A elite só gosta de guetos. Seu lema é: eles lá, nós cá. Por isso, é preciso continuar e combater de uma vez por todas os empresários crocodilos que abocanham não só o dinheiro, mas a subjetividade, a dignidade e o Direito de muitos. Pois a cidade precisa fruir.

Leia também outro texto, publicado neste mesmo blog, sobre a ocupação: A potência da ocupação.

14th Jul2013

A potência da ocupação

by Pedro Henrique Gomes
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Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Ai de nós!

O próprio inferno

Nos fecha as suas portas!

Estamos perdidos. O sanguinário Bocarra

Aperta a garganta de nosso explorador

E quem sufoca somos nós!

(A Santa Joana dos Matadouros, Bertolt Brecht)

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A tarefa não é codificar as novas relações sociais numa ordem fixa, mas ao invés disso criar um processo constituinte que organize essas relações e faça com que elas durem enquanto buscam inovações futuras e permanecem abertas aos desejos da multidão. (Declaration, Antonio Negri & Michael Hardt, em tradução livre)

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A Câmara Municipal de Porto Alegre está ocupada.

Mas não é assim tão simples nem logicamente coerente revelar o que emana da ocupação. Os discursos são incapturáveis quando observados através das velhas lentes e pelos antiquados bloquinhos que vêm a soldo. A organização coletiva, no limite, opera a partir da resistência dos espíritos, dos corpos que latejam e insistem em sonhar o impossível. Ora, tudo é impossível apenas até ser concretizado. A luta, se quisermos pensar em uma transformação real e potente, talvez esteja tentando romper com suas próprias dificuldades mais substanciais: de autonomia, de organização, de produção de subjetividades imanentes à própria ocupação, de aprofundamento das divergências, de suficiências. Há fissuras, há tumulto, tudo faz parte da coisa política. São muitas vozes e muitas vezes, repetidas, mas inesgotáveis em substância e em torpor. Não há mais como cooptar o movimento, pois ele já é superação de si mesmo. Errado e errante: vai acertando de acordo com a necessidade. Lá dentro o calor é outro.

A articulação popular não é mediada pela lógica burguesa de representação piramidal, o alimento tem um fluxo de cooperação, os corredores são espaços realmente utilizáveis para debates abertos entre as comissões de organização e planejamento, as assembleias exigem pulsão e envolvimento. Ali as classes foram abolidas. Os conflitos internos são saudáveis e ocorrem na exigência da democracia, na teoria prática que está em cada um e que constroi, ela também, o imaginário da ação. Os livros são ressignificados a partir da experiência brutal da materialidade das lutas. Os impasses alimentam o desejo constituinte e a retórica é a arma dos ocupantes. No fim é isso mesmo, tudo reinvenção, o tempo inteiro, reciclagem da polifonia, macumba das experiências, trabalho vivo. Mas vamos esclarecer: nunca se soube tão bem o que se quer. O movimento aprendeu a poética da crueldade, e aí se libertou. É isonômico no sentido de Hannah Arendt: não é que todos são iguais perante a lei e nem que a lei seja igual para todos, mas sim que todos têm direito a atividade política.

Política: as crianças presentes engatinham pela casa livremente. A plenária, neste momento, parece um lugar ideal para aprender também a caminhar. O fluxo de narrativas e possibilidades que correm pelo espaço já é parte de uma construção sem par na história da cidade. Multitudinária, colorida, visivelmente distribuída entre as formas de pensar as ações e o mundo, a ocupação afirma muitas de “suas raivas e de seus ódios” contra a opressão do transporte na cidade. Em Porto Alegre, o transporte é violento, machista, classista, opera para reforçar a exclusão do pobre, para tornar a cidade mais branca, mais para os brancos. A rebelião social quer romper a estrutura pela qual essa violência, que também age subjetivamente, se reproduz no cotidiano dos populares.

Enquanto a mídia maior insinua suas lamentações tentando implodir a ocupação, a resistência só aumenta, alternativas se criam, as demandas iniciais começam a gerar respostas minimamente satisfatórias. As micropolíticas que estão lá provocam questões e rasgam esse poder totalitário e excludente. Mas não se pode alimentar ingenuidades: os leões não são bobos, vão continuar mordendo.

Nas conversas pela madrugada que confundem a passagem do tempo e invadem os conceitos e as formulações comuns para explorar seus limites, nas rodas de capoeira que se criam no espaço ocupado, no samba que surge a reboque, no sabor da fumaça que é alimento dos deuses, nas performances dialéticas do corpo e da palavra em meio à multidão, nos olhares firmes e no suor dos grupos de trabalho, no grande sexo que é estar vivendo o mundo por dentro. Pode haver tudo, menos apatia e insegurança. As bombas de gás que poluíram a cidade durante várias manifestações, e cujo efeito ainda escorrem nas veias de alguns, não afastaram os coletivos de suas pautas. Ao contrário, se o diabo fez sua gente cheirar gás, continuaremos a dançar. Como sabemos, a força política da revolta popular é o desenlace dos conflitos que essa multidão selvagem pretende expor. Para além da festividade (mas com ela também; no amor e no ódio), no nosso beijo e no nosso abraço, é preciso carnavalizar tudo, antropofagizar com os subjetivos. Não irá acabar quando os ocupantes deixarem a casa. Vai continuar.

01st Jun2013

Porto Alegre, Hannah Arendt, cavalos e estética

by Pedro Henrique Gomes

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As ruas estão empolgantes enquanto movimentos articulam focos de resistência aos positivistas-cientificistas-conservadores que buscam pautar a cidade.

A depredação estética de Porto Alegre é fruto também da ignorância dos que a “pensam” e planejam. Não é só questão de interesses financeiros, mas de analfabetismo estético. Aí é que está. Quando os responsáveis não sabem o que são as coisas belas e como elas interagem imaterialmente com os populares, eles não são capazes de pensar os movimentos, a transitoriedade, os fluxos, as relações, as revoltas, os trânsitos, os sexos, os corpos. Eles não governam: extinguem. Qualquer espontaneidade é então desestruturada, à ferro ou à fogo. É esse o encadeamento de subjetividades que faz com que a ideia de uma cidade mais branca, concentrada e em marcha se estabeleça como uma visão honesta e bem calculada do progresso. Assim, fica fácil endurecer o discurso punitivista “quando o pedestre atravessa fora da faixa”. Cadeia. Bomba de efeito moral. Cavalo e pancada.

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Engraçado é que, em um filme como Depois de Maio, em que as aspirações de uma juventude pós-1968 se “encontram desencontradas e se encontrando”, coisas semelhantes acontecem – claro, com todas suas diferenças. Em Porto Alegre, esses movimentos também estão tateando uma potência não numa unidade, mas na desestruturação do pensamento e da prática dos confortáveis. É outro jogo, mas jogo de sangue que corre, que pulsa.

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E vem aí um filme sobre Hannah Arendt, dirigido pela Margarethe von Trotta, que já fez um bom filme sobre Rosa Luxemburgo – que seria dirigido pelo Fassbinder se ele não tivesse falecido pouco antes. Ela pensou a ação política com firmeza e disse que “o indivíduo em seu isolamento jamais é livre; só pode sê-lo quando adentra o solo da polis e age nele”. Tem tudo a ver. Espero que o filme venha para os cinemas de Porto Alegre, aproveitando enquanto a cidade vive esse momento politicamente importante.

16th Aug2011

Inspiração e revolta

by Pedro Henrique Gomes

Inspiração e revolta

Inspirados pelas manifestações iniciadas no mundo árabe, que derrubaram regimes e ditadores, mas sobretudo desencarnaram nos jovens o espírito revolucionário, inquieto como um livro de Dostoievski, inominável como um verso de Manoel de Barros, os jovens brasileiros armaram-se, ainda que a passos curtos, contra os impropérios dos poderes constituintes, as ações peremptórias de uma mídia passiva e fustigada por anos de um jornalismo duvidoso, dona de uma certa razão própria e, ao mesmo tempo, universal, como se fosse Apolo, Deus grego da verdade. Com o passar do tempo, o povo, inteligente como é, esperto que é, percebeu as brechas e legitimou a oportunidade de tomar as ruas, o espaço público dignificante, e seu por direito. Decerto imbuídos de um desejo invisível, porém compartilhado por uma mesma inspiração e por semelhante revolta.

Mas, este grupo, ao organizar marchas contra todos os tipos de preconceito, protestos contra as mais variadas injustiças sociais, reconheceu e engendrou uma política própria, calcada em um movimento livre de bandeiras, apartidário (como deve ser uma revolução, se for do contrário, parece mais um desperdício da experiência) e irrefreável. Uma potência gritante urgiu das ruas, doravante assustando a parcela mais conservadora da população brasileira. Mas, se isso perturba a ordem burguesa e ameaça destronar seus poderes místicos e invisíveis, é claramente explicitado em todas as vertentes que os cordões estão aí prontos para serem puxados, seja para qual lado for. E que isso nunca seja confundido com anarquia.

A estética da revolução

As redes sociais potencializaram essas vozes, trataram de organizar as manifestações. Mas não há nada como o suor das ruas. Antes disso, as marchas e todos os movimentos que surgem, nascem, quase sempre, ou sempre, através das redes. Proliferam-se e se abraçam nas ruas, na poética da revolta, no encontro da vontade com o poder público. O movimento iniciado em São Paulo, primeiramente em função da proibição da marcha da maconha, ganhou o Brasil, de Porto Alegre a Recife. Depois vieram manifestações diversas: marcha das vadias, da liberdade, pelo software livre, contra a censura, pela erradicação do preconceito.

Assim, a dialética das ruas instaurou um período de poder, o povo se percebeu capaz de explanar. Trata-se, entretanto, e não por isso menos merecedor de respeito, de uma tentativa lúcida de mudança, de sangria – ainda que beba do leite doce de sua infância. Por outro lado, esse devir político que se cria, ou melhor, se transforma e se adapta aos novos tempos, na sociedade contemporânea mundial, com mais rigor na Europa, e, um tanto mais lentamente, na América latina, já dá sinais de vida. As revoltas estão ganhando corpo aos poucos, se transmutando em uma atmosfera inquieta globalmente, não mais calada e submissa. Mesmo que estejamos falando de ações ainda com muita terra a serem conquistadas, o processo revolucionário já tem em si seu próprio êxito. Cito o filósofo francês Michel Foucault, em entrevista concedida à revista canadense Body Politic, em 1982: ‘Devemos não somente nos defender, mas também nos afirmar, e nos afirmar não somente enquanto identidades, mas enquanto força criativa’.

Preconceito

Homossexuais, negros e pobres são mortos diariamente. Têm suas vidas arrancadas a torto e a direito, a revelia de qualquer tempo ou espaço de reação. O quadro é assustador, até mesmo vergonhoso, esse do início do século. Para abater o preconceito, é necessário postar-se contra o sectarismo reinante não só na sociedade brasileira contemporânea, mas na própria política, que gere e subjuga os limites das escolhas de todos. Uma certa política, aliás, objetivamente instruída a implantar um Estado de Exceção (Giorgio Agamben, 2004, Boitempo Editorial), onde os direitos comuns a todos são suprimidos, reprimidos, postergados em nome de um poder centralizado e totalitário – em grande parte controlado pela mídia em troca de favores e concessões. Ou seja, a bem dizer, o preconceito começa nos meios de comunicação e nos poderes amigos do Estado, para disseminar e difundir aqueles ideais/interesses que mais lhes parecem aprazíveis. Sendo assim, a luta não é da sociedade contra ela mesma, como nos tem sido vendido pela imprensa. Não existe luta de classes. O problema parte de dentro da nação, do Estado, da mídia, para então reverberar numa população medrosa e oprimida.

O preconceito começa quando, afinal? Primeiramente, ele não começa, ele nasce. Do preconceito são erigidas as mensagens de violência virtual (uma rápida leitura em artigos na internet sobre homofobia, por exemplo, trata de confirmar a tese), que em sua consequência lógica e natural dentro da mente humana, se ramifica no corpo, nas ruas. Eis a violência urbana, tal qual demandada pela cultura do medo mostrada no noticiário. É a corporificação da imagem da violência urbana.

Uma das grandes formas de preconceito, para pegarmos um exemplo em voga na grande mídia, é o dia do Orgulho Hétero. De que maneira, ou em que medida, o aviltamento sobre o modo de vida do outro afeta a existência do Homem? Ridicularizado pela imprensa mundial, o projeto de lei 294/2005 (que Kassab vetou) do vereador Carlos Apolinário (DEM), prevê a criação do Dia do Orgulho Heterossexual, ‘em defesa da moral, da família e dos bons costumes’. Apolinário, não por acaso ligado a Igreja, defende sua tese de que o projeto não institui homofobia, tampouco a incentiva. Orgulho heterossexual? Orgulho de ser a maioria? Orgulho de poder andar nas ruas tranquilamente sem perder a orelha? Orgulho de poder transar com alguém do sexo oposto? Orgulho de poder casar, ter filhos?

Ora, não sem um tanto de ironia, podemos dizer que não há nada mais justo do que criar um dia de protesto para a maioria rica e branca, intelectual e bem vestida, poliglota e elegante, letrada e cheirosa. Apolinário ignora, não obstante, que todo processo de revolta do qual gays, negros e de todas as minorias oprimidas se baseiam em princípios humanos constantemente feridos simplesmente por serem eles ‘diferentes’ de sua agremiação, de sua concepção de mundo. Ele esquece ainda que, na terra das injustiças, a maioria não é espancada ou assassinada por ser maioria. Ninguém é segregado e subjugado por ser machão. Nada mais preconceituoso do que negar o preconceito.

Mídia e censura

A imprensa precisa assumir seu papel de imprensa. Sobretudo nos campos da política e da cultura, têm praticado um jornalismo do interesse, por coerção. A censura, que começa pelas mãos dos poderes do Estado, desemboca na própria mídia que, ao não mostrar, falseia os fatos e omite informações. A informação chega filtrada, corroída. Todo processo legitimado e imbuído por uma certa força política precisa passar por uma reforma nos meios de comunicação. Passa a ser essencial a democracia que a mídia nacional deve exigir de si mesma, antes de tudo. Pois, claramente, o preconceito se difunde por ela e entre ela. Se a mídia não contesta o poder público, se ela age por concessões das multinacionais, o reflexo se dá no povo, desinformado e satisfeito, aquele que reclama na frente da televisão, aquele que se diverte com o humor baixo e insignificante de nossa produção audiovisual aberta.

Limpeza étnica e urbana

De tudo que se fala sobre a tal inclusão social, nada disso passa pelas remoções que vêm sendo feitas em diversas cidades brasileiras. Em Porto Alegre, na Vila Chocolatão, durante o mês de maio desse ano, centenas de famílias foram desapropriadas de suas casas, que foram destruídas. As autoridades prometeram realocar os moradores, mas eles precisavam encontrar novas moradias em tempo hábil, caso contrário, nada poderia ser feito. Quer dizer, muitas casas foram destruídas sem que seus moradores tivessem encontrado outro lugar para dormir. Consequência lógica: dezenas de pessoas ficaram à margem, quando não tiverem que dormir nas ruas. Tal violação dos direitos humanos, muito recorrente, por exemplo, no Rio de Janeiro em função das obras para as Olimpíadas de 2016, torna óbvia a inoperância de nosso poder público e de nosso judiciário. Ora, injustificadamente, as pessoas foram removidas de suas casas sem terem sido realojadas em outras.

Nesse contexto fantasmagórico, para que sejam construídos estádios de futebol e hotéis, o ser humano, especialmente o mais pobre, é visto como moeda de troca, destinado a não atrapalhar, a não existir. A função da remoção, muito antes de protegê-lo e ‘incluí-lo na sociedade’, o transfere para as periferias, tirando-o da vista límpida e austera das coberturas e das mansões. Pois não interessa a ninguém, a não ser aos próprios (ex)moradores, o que eles irão fazer para comer, se vestir e dormir. É assim, com a transferência forçada e involuntária da ‘gente diferenciada’, que a classe-média brasileira pode gozar do seu conforto, adquirido com anos de suor. Na lógica capitalista, para uns comerem, outros precisam passar fome. Esse espírito de guerrilha do poder público, tão eficiente e ágil, que coloca o trabalho acima de tudo (ou seja, vamos remover e ponto) das prefeituras das principais capitais brasileiras, nunca foi visto antes. A bem dizer, quando as coisas precisam estar limpinhas e brancas para gringo ver, é possível.

Enfim, a geração

Já vimos que as marchas são constituídas por uma juventude indignada, mas será que esta juventude sabe por que marcha? Onde se localiza a tal razão crítica? A função democrática e social dos movimentos (que são livres, horizontais, apartidários) encontra, de fato, um objetivo? Por que marchar? Pelo quê marchar? As respostas podem vir com outras perguntas. Quem disse que a marcha não protesta por um melhor e mais eficiente sistema de saúde pública? Quem disse que a marcha não exige uma reforma no sistema educacional brasileiro? Quem disse que a marcha não reivindica por um transporte público mais abastado?

Trata-se, basicamente, de um procedimento voluntário, coletivo, multifacetado. Quem sai às ruas não pode só querer mudanças, tem de fazê-las por dentro, enjambrando ideias e ideais sobremaneira, conjuntamente. É agora a hora da pujança. Se Twitter e Facebook estão aí para mediar as ações coordenadamente, a geração criada na tecnologia precisa acostumar-se à eles, reconhecê-los como ferramentas para além da socialização barata. A internet, em toda sua complexidade, é uma fonte de inesgotáveis possibilidades, nos resta verificar sua equivalência e adequá-la ao processo constituinte de um Estado verdadeiramente democrático, de uma sociedade pensante, não-neutra, pós-pós-moderna.

Não estamos dizendo, no entanto, que a ética de tudo prescinde da rebeldia, mas, sim, e principalmente, da conscientização em si. Essa geração do fast food, a minha geração, da mensagem instantânea, ainda engatinha em relação a um avanço possível nesse caminho de luta (que é, sobretudo, uma luta por direitos) e revolta. Mas não se trata, aqui, de cercear um discurso de esquerda ou de direita, o contexto não demanda cores e/ou siglas. O capitalismo, é verdade, já morreu há muito tempo (as sequelas estão aí, vejam a Europa, a crise estadunidense), só não foi sepultado. Enquanto isso, vive assombrando. Face a isso, faz-se necessária uma reforma política completa, e, também, uma manutenção nos meios de comunicação, que é por onde passam todas estas verdades imutáveis. E isso não é manobra da esquerda, não é obra do socialismo, é a própria experiência cotidiana que clama pela revolução.

Para tudo isso, voltemos à questão primordial: o que fazer, senão ir às ruas?

22nd Jul2011

Sobre a censura

by Pedro Henrique Gomes

Não há qualquer tipo de explicação, argumentação ou debate que parta do princípio defensor da censura. Pois o que fez a Caixa Econômica Federal, patrocinadora, por meio da Caixa Cultural, do RioFan – Festival Fantástico do Rio, ao proibir a exibição do filme A Serbian Film – Terror sem Limites, se explica na hora. Não existe outra atribuição possível: censura dos pés à cabeça. Mas o pior foi a alegação, a defesa que justificou o ato proibitório. A nota diz, em tom desnecessariamente dramático, o seguinte: “A Caixa entende que a arte deve ter o limite da imaginação do artista, porém nem todo produto criativo cabe de forma irrestrita em qualquer suporte ou lugar”. Por favor, intérpretes de linhas rasteiras, expliquem desde quando a arte ou a imaginação do artista possui limites? Se eles (tais limites) existem, quais são e quem é capaz de julgá-los? Uma coisa é certa, não será ninguém que tenha tomado tal decisão. Isso (estes limites), certamente não está escrito nos livros de teoria crítica do cinema, tampouco de filosofia. Que direito é esse, que é praticamente estabelecido? Direito de ver é direito de escolha. A arte dos filmes, os bons e os maus, constituem toda uma história crítica pessoal e coletiva. É só nesse diálogo, no exercício de assistir, que se consegue discernir o certo do errado (conceito expressamente subjetivo). É necessário mostrar as coisas para discutí-las, não julgá-las a revelia.

Ora, ao contrário de estimular a violência (novamente falamos de um conceito obviamente bastante utópico e acrítico), o filme apenas mostra que ela existe. Quando da exibição do filme durante o Fantaspoa – Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, em versão que já chegou censurada (não foi o corte original exibido em Porto Alegre), as sessões tiveram boa presença de público. O que significa isso? O público, mais do que ninguém, quer ver o filme. E se A Serbian Film não é um bom filme, que se lance um olhar crítico sobre suas qualidades enquanto produto do cinema, não como arma pró-crime. Não há qualquer tipo de apologia, e tudo que nele está imbuído colabora mais à exposição de uma realidade, que, por si só, é assustadora e factual. Ironicamente, a censura dissemina o preconceito, ao mascará-lo e torná-lo “perigoso” diante de certos olhares/interesses, ao colocá-lo como parte bandida do mundo simplesmente negando sua existência. A censura rema contra a maré da educação.

Na sociedade do espetáculo, essa é sua única função: reprimir, dominar e ditar as vontades da população. Ainda mais irônico é o fato de que, após a proibição, o filme (que, como cinema, é até bem pobre) ganhou força na mídia e despertou o interesse de pessoas que sequer saberiam de sua existência. A censura, neste caso, só vai fazer aumentar o público, já que ele provavelmente vai entrar no circuito de algumas salas menores. Porque, acreditem ou não, o filme vai ser visto e o público (esse sim) terá a resposta para única pergunta cabível neste imbróglio: o filme exalta e glorifica a violência ou atesta sua repugnância e covardia?

Da mesma forma, é absolutamente litigiosa a ideia de que um filme possa fazer a cabeça de uma pessoa. Ora, alguém que comete atos de violência tais quais os sugeridos no filme em questão, o faz por ser mentalmente desequilibrado, ou por qualquer outro motivo correlacionado ao convívio social, a solidão, ao desamparo, a educação. Ninguém se torna, se é. O mesmo conceito aplica-se, por exemplo, ao caso dos jogos de tiros, simuladores de guerra e jogos com violência explícita, quando lançam a eles um poder inexiste de incentivo à violência, atribuindo, muitas vezes, os atentados nas escolas (Columbine, Realengo) e nos shoppings (Holanda) ao jogo. Não existe estímulo possível, aceitar isso como a única razão e argumento para censurar e proibir é agir contra a sociedade, é menosprezar e alienar as pessoas, delegá-las a imposição moral de instituições muito pouco preocupadas com uma concepção de mundo (e, porque não, de cinema). Pois, para construir um pensamento crítico sobre as coisas, somente tomando contato com elas, provando de sua indigestão. O direito, no entanto, permite a qualquer pessoa que julgue o que lhe deve ser ou não digerível. Os filmes (pelo menos aqueles dos quais nós gostamos e respeitamos), assim como os jogos, os livros, as músicas, as peças de teatro e a poesia, são pedaços constituintes da sanidade coletivo-cultural, jamais embriões do mal absoluto.

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Segundo anúncio do RioFan, o Grupo Estação, em parceria com a distribuidora Petrini Filmes, irá promover uma sessão extraordinária de A Serbian Film no Cine Odeon, às 22h do próximo sábado, dia 23 de julho.

30th Jun2011

Algumas palavras sobre a #marchadaliberdade

by Pedro Henrique Gomes

O que queremos, de fato, é que as ideias voltem a ser perigosas. (escrito em um muro em Paris, 1968)

A marcha pela liberdade, que tomou as ruas de 40 cidades brasileiras, de Recife a Porto Alegre, no último sábado 18, é a manifestação mais clara da democracia das ruas, aquela que se enreda nas redes, nos contatos. Revoltas incendiárias começaram nas redes sociais no mundo árabe (Egito, Síria, Tunísia, Líbia), derrubaram regimes totalitários e opressores, se alastraram para a Europa, onde tomaram as ruas e as praças da Espanha, com o Movimento 15M. Resguardadas suas respectivas proporções, incentivaram a tomada das ruas no Brasil, país repleto das mais variadas culturas e etnologias, país da mestiçagem, das possibilidades antropológicas e antropofágicas, das periferias, da cultura do povo. O que se constituiu nas redes virtuais, agora ganhou as ruas, o espaço público-democrático comunicável.

A #marchadaliberdade é, antes de tudo, e sobretudo, a marcha dos amores incompreendidos, das revoltas coletivas, dos poderes populacionais criando políticas próprias, movimentos horizontais, apartidários, independentes, livres. Lá estavam todas as crenças, independentemente de qual bandeira estavam tremulando: homossexuais, negros, brancos, estudantes, deficientes físicos/visuais, índios, músicos, blogueiros, jornalistas; marcha da maconha, das vagabundas, dos defensores dos direitos humanos, dos alunos da PUC/RS, pela Banda Larga popular, pelo software livre, por um Estado laico, pelo compartilhamento por uma imprensa verdadeira e não-sensacionalista.

Como a própria decisão do STF foi revogada, liberando a marcha da maconha, a #marchadaliberdade é um movimento que quer o debate público, não clausulas pétreas; quer ouvir todos os cantos lamuriosos e pensantes, quer democratizar a democracia. Com isso, é inevitável que a classe-média fascista apoie a repressão policial, pois deseja que ela, a Polícia (que deveria salvaguardar e proteger os direitos constitucionais do cidadão) limpe as ruas, que instaure um embranquecimento nos bairros da nobreza. Mas, diremos: as ruas estão tomadas por um poder incontrolável, ingovernável. Mas é necessário mais. É necessário que a “gente diferenciada” tome as ruas, que o jovem negro, reprimido, desça o morro – é essencial que essa manifestação contagie mais grupos, converse com mais pautas, explicite as diferenças e as necessidades de cada uma. É a mesma luta, diferentes.

As reinvindicações são várias, não centralizam um discurso homogêneo, não bradam por uma causa inútil como querem fazer crer os neoliberais, que exclamam contra a marcha, dizendo que ela não serve para nada, que existem coisas mais importantes para se realizar uma marcha, como educação, saúde. Quem participou sabe da dimensão e da importância. O discurso do qual muitos fazem uso para demonstrar posições contrárias a marcha gira em torno de uma falsa-questão. Para estes, também temos algumas coisas a dizer: a marcha não defende a unilateralidade dos pensamentos, tampouco das ideias e das indignações. A manifestação é dos indignados, todos eles, todos nós. Na próxima, leve sua indignação, ao invés de condenar a democracia das ruas. A #marchadaliberdade é heterogênea, é de todos os protestos, todos os reclames, todas as cores, todos os gritos afogados por anos de repressão intelectual. As redes sociais unificam e potencializam os movimentos, mas nossa arma é o poder do povo, um poder pacífico e indignado que se constitui efetivamente nas ruas. As páginas dos livros de História das gerações subsequentes não serão mais escritas pelos mesmos ditirambos dionisíacos.

Quem disse que a marcha não protesta por um melhor e mais eficiente sistema de saúde pública? Quem disse que a marcha não exige uma reforma no sistema educacional brasileiro? Quem disse que a marcha não reivindica por um transporte público mais abastado? A causa da manifestação não é essa que a grande mídia nos quer vender. A marcha não é monotemática, pois distribui ideias distintas, visões de mundo que se equivalem através do desejo pela mudança e com a força do coletivo. Pluralidade. Não raro, e ironicamente, os mesmos corações que repudiam a revolta são aqueles que, outrora, pediam certa urgência nessa nossa juventude contemporânea. O que acontece agora é só um começo, diremos.

Links inseridos no texto:

O Ingovernável
Quadrado dos Loucos
O Inferno de Dandi
O Descurvo
Blog do Sakamoto
Movimento 89 de Junho
Somos andando

15th Apr2011

Uma tragédia social

by Pedro Henrique Gomes
A mídia está em fervor. O noticiário diário tem dado muito material às grandes editorias dos veículos dominantes. É o homem que deliberadamente decide atropelar uma dúzia de ciclistas em Porto Alegre; o deputado que vai à televisão difundir o preconceito contra negros e homossexuais; o jovem que invade uma escola e mata mais de uma dezena de crianças no Rio de Janeiro. – para ficar só com os casos mais recentes. Fartura para um mês inteiro de exploração da “cultura do medo” (como disse o amigo/blogueiro Bruno Cava no Quadrado dos Loucos em artigo recente).
É a mesma mídia que parece disposta e empenhada em construir mitos e erigir celebridades para alimentar sua população com a desinformação, prestando um verdadeiro desserviço geral. A produção em série dos noticiários só aterroriza as pessoas. Sorrateiramente, vai estimulando o sangue e difundindo a cultura da agressão. A notícia que mais vale é a que mais choca. O pior é que a população está acostumada com o horror, pois foi educada com ele pela mídia. E aí o sangue sempre será a notícia mais rentável. O leitor/espectador espera o noticiário da televisão para saber qual foi a maior atrocidade do dia, depois corre para o Youtube para saciar sua sede por informações complementares. A mesma mídia leva monstros à televisão para que eles possam vociferar seus cantos lamuriosos de crueldade e desrespeito à população, incitando e explanando suas ideologias bastardas. E vejam só: seus discursos, elevados à máxima potência, inflamam almas e corações facilmente influenciáveis, o que é pior. A fórmula básica: produção maciça de desculturalização e encantamento pelo medo, pelo terror, pelo pavor. Instiga-se a população a tornando descrente e decrépita.
É de interesse dos barões do mercado e dos controladores da imprensa que a população coma em suas mãos, que saiba apenas aquilo que eles querem que saibam, que a população fique em casa sentada no sofá da sala assistindo sempre as mesmas novelas pintarem o quadro de amor e luxúria da zona sul carioca – que não condiz em nada com a realidade do país. Nem mais, nem menos. Oprimir e acuar. Aí quando surge uma novela que trata da ditadura, movimentos constituem-se (logicamente pelas mãos de militares) imediatamente com o intuito de derrubá-la, tirá-la do ar. Dizem que o que passou, passou; não se deve ressuscitar um fantasma há muito tempo morto no passado (sobre o desarquivamento dos processos da ditadura, Danilo Marques se pronunciou no O Inferno de Dandi aqui). Só fala isso quem vive no mundinho de fantasias criado pela mídia, que corrobora para a alienação das massas populares.
Mas é importante destacar que a grande imprensa segue apostando amiúde, todas as suas fichas, numa crença que já começa a dar sinais de cegueira. Mas a democracia da internet, que é onde está imbuída a cultura digital, a difusão livre de conhecimento, está abrindo os olhos das pessoas, culturalizando-as, intelectualizando-as. Vejam as revoluções que tomam conta do mundo árabe. Elas deixam muito claras as reais potências que estão se formando, evidenciam o estado das coisas: ninguém mais será capaz de escrever a História do mundo somente com suas mãos. O poder instituído, os grandes barbantes do Estado e os grandes veículos produtores de celebridades instantâneas só instigam e contribuem para a putrefação de nossas ideias e a anulação de nossos ideais. Mas eles estão perdendo espaço, talvez não haja mais tanta gordura assim para ser queimada, como se pensa. Talvez agora seja sensato averiguar se suas forças, suas armas e sua selvageria não estejam realmente em perfeito esfacelamento, cedendo diante do poderio que vem se constituindo e se interconectando nas redes. Vem daí a defesa tão vigente que vem sendo feita à livre difusão da cultura, a cultura digital, ao compartilhamento e a troca. Mas já é tarde demais, o Twitter e o Facebook já foram inventados, as pessoas já se conhecerem, já acordaram, já difundiram as verdadeiras informações. O povo já está sabendo, e vai, assim, educando a si próprio.
 E veja só o que as coisas acarretam: grupos de extrema-direita organizando protestos em favor do Deputado Jair Bolsonaro, simpatizantes nazifascistas e defensores da ditadura (aliás, Bolsonaro decerto é contra a Comissão da Verdade). Veja bem, homens vestidos a caráter: estrelas ninja, máscaras e bandeiras para protestar em favor de quais direitos mesmo? Estes que impunham bandeiras neonazistas, cartazes anti-Battisti e camisetas de combate. Mas é o direito a palavra, né? O direito a livre expressão. Mas, para esses, só posso dizer que a História não será mais escrita por eles. Bolsonaro (a cobertura sobre os protestos neonazistas em São Paulo, com vídeos, imagens e depoimentos de Raphael Tsavkko, você vê no blogue dele), muito esperto, tenta amenizar as declarações empurrando com a barriga e manejando com jeitinho a complexidade das coisas, dizendo que não havia entendido a pergunta. Brasileiro malandro sabe que homofobia não lhe trará grandes problemas, mas racismo (que é crime) sim – leva inclusive uma foto do cunhado (supostamente negro) para tentar escapar das acusações de racismo.
Sobre o deputado Jair Bolsonaro (outro artigo dá conta maior sobre o caso, no blogue O Descurvo, do Hugo Albuquerque), alguns apontamentos necessários. Acredito que diminuir a gravidade das declarações do Deputado é um erro crasso, como vem sendo feito por muitos abstêmios que querem dar a discussão por encerrada (de maneira semelhante aos que são contra a Comissão da Verdade; ou seriam os mesmos?). O peso delas não é tão somente o preconceito. É tudo muito mais delicado do que parece. O que fica para nós deste cadafalso? Encerrar a discussão é um problema grave, pois essas “simples declarações” ferem milhares e corrompem mentes. Evidentemente que o discurso das massas tende a ser vítima do calor do momento, de opiniões muitas vezes sem embasamento e conduzidas desfocadamente diante da complexidade das coisas, mas empurrar a sujeira para debaixo do tapete não serve mais. Não hoje. Não no século XXI. Pena que não existe mais um Durkheim, um Marx, um Baudrillard ou um Schütz aqui e um Debord acolá. Deixar as coisas como estão (“está ruim, mas vai melhorar”), acomodar-se: eis o mal do nosso tempo. Uma coisa é certa: não será o silêncio abstêmio que irá mudar o mundo. Não há heróis ou algozes nesse nosso mundo antropofágico. Que não nos calemos, pois.